A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incrÃveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
(Adélia Prado)
completa-se mais uma década para mim, a quarta. bem no meio de tantas mudanças, do meu descobrimento como mãe e empresária, entre tantas outras coisas que sou e faço.
meus vinte anos passaram como um relâmpago — não vi. olho pra trás e vejo tanta coisa, pessoas, erros, acertos e decisões definitivas. engraçado que acho que era mais imatura nos meus 20 anos que nos meus anos de adolescência. como fui séria na adolescência e fiz besteiras nos meus 20!
os 30 anos foram marcados pela terapia, a descoberta de que precisava me centrar, acalmar a cabeça e a alma, procurar meus caminhos. descobrir o que queria de verdade, lá no fundo. abandonar a tentação de viver a vida de outras pessoas, e não a minha. o diabo, que sempre esteve nos detalhes, me impedia de ver o plano maior, enxergar o que sempre esteve ali, bem à minha frente: eu só queria ser feliz, com simplicidade. uma simplicidade e tranquilidade que sempre me foram negadas por princÃpio, pois venho de uma famÃlia OVER, que valoriza o excesso e a (inatingÃvel) meta de felicidade absoluta e plena e despreza as pequenas felicidades do dia a dia, o conforto do silêncio e da companhia de si mesmo.
disse adeus à s pessoas e coisas que me machucavam, me faziam mal. aprendi — a duras penas — o significado da expressão “abrir mão”. deixar ir, definitivamente, pois uma vez que fazemos escolhas aquele caminho não existe mais, é passado. é possÃvel reencontrar pessoas, mas não voltar no tempo. e à s vezes, mais frequentemente do que eu pensava, é preciso abrir mão e seguir, para não paralisar.
e eu andei.
no fim destes meus 30, depois de 7 anos de casados, decidimos ter um filho (talvez mais, se conseguirmos adotar), e a vida mudou. à s vezes pra pior, é verdade, pois aos quase 40 já nos acostumamos a viver de forma independente e completamente livre. e filhos (não vou mentir) limitam bastante o que podemos/conseguimos fazer. além do cansaço, e disponibilidade quase absoluta, além de continuar fazendo todas as outras coisas que já tÃnhamos que fazer como trabalhar e cuidar da vida, da casa. mas é também apaixonante, maluco, divertido e muito, muito bonito ver um humano crescer e aprender.
plantei árvores, escrevi livros (não publicados. corrigirei isso!), tive meu filho. dizem que precisamos fazer essas coisas antes de sair desta vida, não?
pois acho é pouco ![]()
vem muito, muito mais nos próximos (muitos!) anos. quem sabe mais filhos (mas sem gravidez, essa eu dispenso), mais negócios, ideias, amigos, almoços em famÃlia, viagens, descobertas.
faço 40 em poucos dias, e estou mais feliz do que pensei que poderia estar. não estou feliz com meu corpo, meu cabelo tá esquisito, ando cansada como nunca estive, várias coisas que queria melhorar na vida, mas… estou feliz. apesar de todos os pesares.
graças, suponho, à fome. sempre, sempre em dia ![]()






