A última mudança de apartamento serviu de pretexto para uma limpeza geral nos livros que tenho em casa (chamar minha modesta coleção de biblioteca seria um certo exagero). Nesse processo de descartar e organizar, decidi dedicar uma prateleira para “os livros não lidos”. A tal prateleira se multiplicou por quatro…. Tem de tudo um pouco. Desde clássicos que juro que vou ler um dia (Dom Quixote) a livros de história econômica e filosofia do direito (como Tempo do Direito, de François Ost). Existem os livros que compro nas viagens, porque lá fora mesmo os lançamentos em capa dura são incrivelmente mais baratos: acho que foi assim que “Physics for Future Presidents”, de Richard Miller, veio parar na estante. Há aqueles que até já até li, mas não resisti a uma edição primorosamente bonita! É o caso de uma edição da obra completa de Lewis Carrol e de uma coleção completa de Sherlock Holmes com ilustrações originais. Existem vários livros do Neil Gaiman, um dos meus escritores preferidos, cuja capacidade de publicar novos livros é superior à minha capacidade de lê-los. E ainda sigo comprando livros de ficção cientÃfica, apesar de não ler mais o gênero tanto como quando era adolescente. “The Science Fiction Hall of Fame” comprei em Estocolmo apenas por causa do conto “The Nine Billion Names of God”, de Arthur C. Clarke, uma das histórias mais bonitas que já li nessa vida.
Fiquei indignada comigo mesma por ter gasto tanto dinheiro em livros que não li. Cheguei a prometer que não compraria nenhum livro novo enquanto não lesse todo meu estoque de obras inéditas. Óbvio que a promessa não resistiu à primeira visita a Livraria Cultura, de onde saà com “Versos de Circunstância” publicação póstuma de versos inéditos de Carlos Drummond de Andrade.
Então, enquanto relia alguns trechos de “A Lógica do Cisne Negro”, em busca de inspiração para uma palestra que preciso preparar, me deparei com a seguinte passagem:
“Livros lidos são muito menos valiosos que os não lidos. A biblioteca deve conter tanto das coisas que você não sabe quanto seus recursos financeiros, taxas hipotecárias e o atualmente restrito mercado de imóveis lhe permitam colocar nela. Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não-lidos. Vamos chamar esta coleção de livros não lidos de antibiblioteca.†Nassim Nicholas Taleb, “A Lógica do Cisne Negroâ€.
Definitivamente, eu tenho uma antibiblioteca em casa. E não vejo solução para o problema. Vou tomar a questão como um fato da vida: à medida que o tempo passa acumulo experiência, rugas, alguns quilos a mais na balança e inúmeros volumes de livros não lidos nas estantes.
Publicado em Observatório