Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Walter Benjamin e o Inconsciente Colonial

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Walter Benjamin
«(Em Munique), sob a orientação do americanista Walter Lehmann, (Benjamin) já havia iniciado os seus estudos sobre a cultura mexicana e a religião dos maias e dos astecas no semestre de Verão - estudos estreitamente ligados aos seus interesses mitológicos. Nessas conferências, que eram assistidas por poucas pessoas e por raríssimos estudantes universitários regulares, Benjamin travou conhecimento com a memorável figura de (Frei) Bernardino de Sahagún, a quem devemos tanto a preservação das tradições maias e astecas (...). Algum tempo depois, em Berlim, vi o grande dicionário asteca-espanhol de Molino - trata-se do Vocabulario de la Lengua Mexicana de Alonso de Molina, 1571, 1880! - sobre a escrivaninha de Benjamin: ele tinha-o comprado para aprender a língua asteca, mas nunca realizou o seu projecto.» (Gershom Scholem)

Graças à biografia intelectual de Walter Benjamin de Bernd Witte, sabemos que, durante a sua estadia em Munique em 1916, Benjamin frequentou diversos seminários, entre os quais o seminário sobre a linguagem e a cultura do México Antigo de Walter Lehmann. O entusiasmo de Benjamin pelas culturas pré-colombianas contagiou Scholem, o qual se sentiu impelido a frequentar o curso de Lehmann quando foi para Munique em 1919, tendo lido e recitado diversos hinos religiosos. Numa carta dirigida a Benjamin, datada de 13 de Abril de 1933, Scholem compara os acontecimentos na Alemanha com a expulsão dos judeus de Espanha em 1492, que foi também o ano do início da conquista e da colonização da América por Cristóvão Colombo. Infelizmente, Benjamin não chegou a aprender a língua dos astecas, a língua nahuatl, e do seu entusiasmo pré-colombiano restam apenas dois fragmentos: Embaixada Mexicana e Trabalhos no Subsolo da Rua de Sentido Único. Ei-los citados na íntegra:


Embaixada Mexicana. "Je ne passe jamais devant un fétiche de bois, un Bouddha doré, une idole mexicaine sans me dire: C'est peut-être le vrai dieu (Nunca passo diante de um fetiche de madeira, um buda dourado, um ídolo mexicano sem pensar comigo: esse é talvez o verdadeiro deus)" (Charles Baudelaire). «Sonhei uma vez que fazia parte de uma expedição científica ao México. Depois de termos atravessado uma floresta virgem de altas árvores, fomos dar a um sistema de grutas à superfície da montanha, onde, desde os tempos dos primeiros missionários, continuava a viver uma ordem religiosa cujos irmãos prosseguiam a sua obra de evangelização dos nativos. Numa das grutas centrais, imensa e fechada numa alta abóbada gótica, celebrava-se missa segundo o rito mais antigo. Entrámos e ainda assistimos à parte mais importante: um sacerdote ergueu um fetiche mexicano diante de um busto de Deus-Pai em madeira, que se via a grande altura, numa cavidade da parede. E a cabeça de Deus moveu-se três vezes da direita para a esquerda, em sinal de negação» (Benjamin). Trabalhos no Subsolo. «Vi em sonhos um terreno deserto. Era a Praça do Mercado de Weimar. Havia escavações em curso. Também eu escavei um pouco a areia. E vi aparecer o pináculo da torre de uma igreja. Não cabendo em mim de alegria, pensei: um santuário mexicano pré-animista, o Anaquivitzli. Acordei a rir» (Benjamin).


Benjamin descreve dois sonhos: as imagens do México Antigo tomam assim a forma de sonhos. As narrativas coloniais - até mesmo o belíssimo Códice Florentino de Bernardino de Sahagún - nunca despertaram verdadeiramente o interesse de Benjamin: a sua escrita imagística identifica desde logo o seu apego pelas topografias míticas que organizavam o espaço em terrenos elevados e subterrâneos, em ligação com o mundo do sonho, tão do agrado do surrealismo, como se constata nestas duas imagens oníricas do México. A interpretação destes dois sonhos não é fácil: ela exige o conhecimento da estrutura que localiza geograficamente o Passagen-Werk (O Livro das Passagens), dando-lhe uma ordem espacial. Tomando à letra a ideia de Benjamin de representar "a esfera da vida graficamente num mapa", Susan Buck-Morss mapeou a esfera da vida de Benjamin, de modo a incorporar os quatro pontos cardeais: «A Oeste está Paris, origem da sociedade burguesa no sentido político-revolucionário; a Leste, Moscovo marca o (seu) fim no mesmo sentido. Ao Sul, Nápoles localiza as origens mediterrânicas, a infância mitificada da civilização ocidental; ao Norte, Berlim assinala a infância mitificada do próprio autor». Paris, Moscovo, Nápoles e Berlim são as quatro cidades visitadas por Benjamin durante os anos vinte e trinta que permitem decifrar os traços de uma geografia política. Segundo Susan Buck-Morss, o projecto das Passagens está conceptualmente situado no centro destes dois eixos leste-oeste e norte-sul: o primeiro eixo indica o avanço da história empírica em termos do seu potencial social e tecnológico, e o segundo define retrospectivamente a história como ruínas de um passado irrealizado. Daqui resulta que as Passagens de Benjamin mais não são do que uma construção espaço-temporal da modernidade porosa - a porosidade de Nápoles! - ao desejo inconsciente e ao mito, aos sonhos do passado e do futuro. Porém, à geografia política da vida e da obra de Benjamin falta-lhe a perspectiva da internacionalização desses espaços - passagens, galerias, boulevards de Haussmann, cidades e Europa - e da sua estruturação pelo colonialismo e pelo imperialismo. Benjamin nasceu na Alemanha Imperial, recém-unificada, na qual o nacionalismo e o colonialismo se reforçavam reciprocamente no imaginário dominante da época: propaganda colonial alemã servia-se das exposições de colecções coloniais nos museus de Dresden e Berlim e de espectáculos de montagem de aldeias africanas para legitimar a sua ambição imperial. É provável que tanto Benjamin como Adorno tenham visitado os museus etnológicos e assistido aos espectáculos. Adorno referiu-lhe essa falta quando criticou o seu memorando de 1935, Paris, Capital do Século XIX, alegando que Paris era não só uma capital histórica mas também - e sobretudo - a capital geográfica de um espaço internacionalizado pelo imperialismo. Apesar do seu interesse pela fantasmagoria das Exposições Mundiais - as precursoras da indústria cultural, e pela categoria marxista de mercadoria, Benjamin recusou envolver Baudelaire na dimensão internacional do capitalismo apontada por Adorno, cuja teoria económica já tinha sido elaborada por Lenine, Rosa Luxemburgo e Rudolf Hilferding. Benjamin viveu de 1933 até 1940 em Paris, o seu segundo lar, tendo recolhido durante este período o material necessário para produzir a história das Passagens. A ascensão do nazismo forçou-o em 1940 a abandonar a cidade de Paris para tentar sair da Europa rumo à América, onde estavam os seus colegas da Escola de Frankfurt. O ano de 1940 modifica brutalmente a sua contextualização geográfica, levando-o numa experiência malograda para além da sua velha Europa, que o III Reich ameaçava destruir. (Convém ler a peça de teatro de Bertolt Brecht, Terror e Miséria do Terceiro Reich, tão admirada por Benjamin!) No entanto, os seminários de Walter Lehmann já tinham aberto essa possibilidade, conforme testemunham os dois fragmentos mexicanos da Rua de Sentido Único, o primeiro dos quais estabelece uma ligação entre o México e Baudelaire. É difícil determinar o carácter histórico ou literário dessa ligação: os últimos anos de Baudelaire (1862-67) foram vividos no contexto dos projectos imperiais de Napoleão Bonaparte para o México e do breve reinado do imperador Maximiliano I, cuja execução em 1867 foi pintada três vezes por Manet. Além disso, o interesse de Benjamin pela estética de Jugendstil mostra que estava ciente da intersecção entre o colonialismo alemão, o desenvolvimento institucional precoce da etnologia alemã e a arte: o primitivismo como forma cultural sempre fascinou Benjamin. De uma forma ou de outra, histórica ou literária, Benjamin regista a relação imperial, o imperialismo referido por Adorno, sem no entanto reflectir explicitamente sobre ela.

No fragmento Trabalhos no Subsolo, Benjamin desenterra oniricamente uma igreja mexicana - o santuário mexicano pré-animista - sob a Praça do Mercado de Weimar e acorda rindo da piada. Que relação pode haver entre a Praça do Mercado de Weimar e o santuário mexicano? No memorando de 1935, Paris, Capital do Século XIX, Benjamin permite vislumbrar a resposta numa frase referente a Grandville: «As exposições universais exaltam o universo da mercadoria. As fantasias de Grandville impõem o carácter de mercadoria ao universo. Modernizam-no. O anel de Saturno converte-se numa varanda de ferro forjado para onde vêm de noite tomar ar os habitantes do astro: a moda prescreve o ritual de acordo com o qual o fetiche deseja ser adorado. Grandville alarga a pretensão da moda aos objectos de uso quotidiano, ao próprio cosmos. Seguindo-a até ao seu extremo descobre a sua natureza. Esta está em contradição com aquilo que é orgânico. Liga o corpo vivo com o mundo inorgânico. Percebe no que está vivo os direitos do cadáver. O seu nervo vital é o fetichismo atraído pelo sex appeal do inorgânico. O culto da mercadoria coloca-o ao seu serviço». (O ensaio de Susan Sontag dedicado a Benjamin tem como título Sob o Signo de Saturno!) A teoria do fetichismo da mercadoria de Marx permite dar a resposta: a Praça do Mercado de Weimar e o santuário mexicano são locais de ritual fetichista, portanto locais de troca e de adoração. Em A Herança deste Tempo, Ernst Bloch considerou a Rua de Sentido Único como uma obra típica da "maneira de pensar surrealista". Mas será que Benjamin - além de tomar o México como representação da relação colonial - o usou também para representar um novo primitivismo surrealista? De facto, no ensaio O Surrealismo, O Último Instantâneo da Inteligência Europeia, Benjamin defende que a verdadeira piada (chiste) é surrealista. Porém, a piada mexicana contida na pseudo-palavra mexicana Anaquivitzli é deveras surpreendente, como já vamos ver. Benjamin presta uma homenagem ao surrealismo quando afirma que os surrealistas foram os únicos a terem compreendido o significado actual do Manifesto do Partido Comunista, mas nem por isso deixa de criticar a sua concepção não-dialéctica da natureza da embriaguez: os surrealistas que recusam acordar do sonho não podem ver a piada. Ora, para Benjamin, a história começa com o despertar, cujo limiar é demarcado na forma do riso: Benjamin acorda do sonho a rir, tanto da imagem do santuário mexicano pré-animista (primeira piada) como da sua contemporaneidade e da sua coexistência com a Praça do Mercado de Weimar (piada sobre a piada). A piada mexicana está situada aqui e não lá - algures no México - e, em vez de ser concebida como um mero resíduo de um passado cultural, como parece sugerir a temporalidade implícita no pré-animismo, o sistema anterior à cisão iluminista entre sujeito e objecto, ela lança uma sombra sobre o mercado que está subterraneamente aqui e agora. Benjamin regista o colonialismo, tanto na sua dimensão espacial como nesse estranho objecto colonial que é a igreja mexicana, mas não o toma como objecto de reflexão, recuando perante a ideia de uma presença colonial a espelhar o carácter fetichista dos mercados europeus: quer dizer que Benjamin desperta, ri da piada e regista o colonial sem o pensar. Mas há outra possibilidade implícita na epígrafe de Baudelaire usada no fragmento Embaixada Mexicana: o fracasso da colonização espiritual da Nova Espanha, ou seja, o esmagamento do cristianismo pelo próprio sistema religioso que tentou destruir. Neste sentido, o Códice Florentino de Sahagún é uma obra paradoxal: ciente de que o Igreja Católica não tinha destruído a maquinaria da idolatria asteca, Sahagún documenta a história da cultura destruída pela conquista espanhola, com o objectivo de ajudar os missionários a reconhecer os sinais da idolatria praticada diante dos seus olhos e a destruí-los. Porém, ao assumir a forma da rememoração, o conhecimento das práticas religiosas destruídas pela conquista guarda a sua lembrança, abrindo assim o horizonte da subversão nativa: aquilo que era dado como quebrado e rachado pode emergir à luz do Sol e dificultar a conquista espiritual do México Colonial, isto é, da Nova Espanha. A epígrafe de Baudelaire sugere que o gesto do sacerdote, ao erguer o fetiche e ao apresentá-lo à imagem de Deus de madeira como a sua verdade, a sua representação ou a sua alternativa, mais não é do que uma piada sobre a igreja mexicana: o fetiche mexicano pode ser o verdadeiro Deus. A descrição deste outro sonho - Embaixada Mexicana - não inclui o momento do despertar pelo riso: Benjamin que fazia parte de uma expedição científica ao México confronta o leitor com a celebração de uma missa segundo o rito mais antigo, no decurso da qual um sacerdote ergueu um fetiche mexicano diante da imagem de Deus de madeira, cuja cabeça se moveu três vezes, em sinal de negação. Apesar deste fragmento onírico integrar muitas figuras e tropos das narrativas coloniais, tais como viagem, confrontação, ansiedade colonial e mimetismo, e da direcção da viagem-expedição continuar a ser a mesma, Benjamin inverte os sinais da avaliação do colonialismo: a colonização é reencenada de modo a fazer vir a missão e a mensagem das vítimas e não dos portadores da colonização. Como se sabe, a Rua de Sentido Único inspira-se no romance surrealista Le Paysan de Paris de Louis Aragon: a grande diferença entre ambas as obras é que Benjamin procura descobrir a constelação do despertar, em vez de permanecer no mundo dos sonhos, como sucede com Aragon. Ora, a descoberta da constelação do despertar é claramente ensaiada nos dois fragmentos oníricos do México. Em qualquer um destes fragmentos do México, Benjamin está demasiado desperto, embora no fragmento Embaixada Mexicana o limiar do seu despertar não tenha sido demarcado na forma do riso, como sucede nos Trabalhos no Subsolo. O despertar permite dissolver a mitologia no espaço da história através do trabalho do riso. Deste modo, é possível permanecer ligado a uma experiência da história, a única experiência que seduzia Benjamin, e, ao mesmo tempo, tentar redimi-la. As duas imagens oníricas do México inscrevem-se na intersecção da etnologia, da estética e da psicanálise, intersecção constitutiva do expressionismo - pensemos na pintura de Kirchner! - e do surrealismo. A descoberta freudiana do inconsciente abriu à reflexão um novo domínio de experiência: o inconsciente foi narrativizado, povoado e suprido de dramas pela literatura e pela antropologia, pela arte e pela filosofia, de modo a dar-lhe uma estrutura e a explicá-lo. Dotado de um inconsciente, o eu dividido dos europeus - estou a pensar na teoria do eu dividido de R. D. Laing e no seu conceito de segurança ontológica! - começou a ser explicado por ele, nos termos da ansiedade da história colonial: os terrenos elevados e subterrâneos, as montanhas e as grutas de Benjamin mais não são do que ilustrações coloniais do e para o inconsciente. Com efeito, as imagens do México registam histórias do colonialismo, e inscrevem-se na estrutura temporal da modernidade que narra a história à luz da ideia iluminista do progresso. (Marx cunhou o conceito de desenvolvimento desigual e Lenine pensou-o para explicar o atraso estrutural da Rússia, mas sempre no âmbito da história acumulativa, isto é, da história narrada à luz da ideia de progresso, com a qual Benjamin rompe!) Ora, esta ideia de progresso tal como Kant a tematizou impõe à escala global da história universal a não-contemporaneidade dos tempos geograficamente diversos e desiguais mas cronologicamente simultâneos. O santuário e a igreja do México Antigo situam-se num outro tempo, o passado do mito, que, não sendo (nosso) contemporâneo, não é presente. Porém, a piada sobre a piada da igreja colonial mexicana torna-a (nossa) contemporânea, fazendo dela a piada sobre a Praça do Mercado de Weimar, que, tal como as outras praças comerciais da Europa Iluminista, está submetida no presente ao culto fetichista da mercadoria e do mito do novo, cujas raízes mergulham fundo algures na acumulação primitiva do capital (Marx) e na exploração colonial. Ao não levar em conta a sugestão de Adorno, Benjamin desperta sem, no entanto, entrar no espaço da história que lhe daria acesso à geografia política global adequada para explicar o lugar da cidade de Paris de Baudelaire no âmbito do sistema colonial mundial: o colonialismo permaneceu inconsciente na obra de Benjamin. Mas convém ter em conta que Benjamin viveu em tempo sombrio, o advento do nazismo na Europa, segundo a expressão de Hannah Arendt, do qual escapou suicidando-se quando tentou em vão fugir para a América. (É uma ideia perigosa para o futuro do Ocidente esquecer que há mundo fora da Europa!)

Utilizei a expressão inconsciente colonial para referir aquilo que no pensamento de Benjamin permaneceu impensado, apesar de Adorno lhe ter sugerido a necessidade de pensar o colonialismo e o imperialismo, para elucidar a dimensão internacional do capitalismo subjacente à concepção das passagens e das lojas de antiguidades como mercados mundiais para o temporal. Utilizando o título de uma obra de Jürgen Habermas, a filosofia de Benjamin pode ser vista como um "discurso filosófico da modernidade", sobretudo da modernidade cultural, cujas linhas gerais foram traçadas por Susan Buck-Morss a partir do Passagen-Werk. A noção de história esboçada em Sobre o Conceito de História - as célebres teses sobre filosofia da história - é sobejamente conhecida para regressar novamente a ela. Em vez disso, prefiro indicar os Fragmentos sobre Filosofia da História e Política, onde Benjamin define o capitalismo como religião, destacando a obra de Max Weber como sendo pioneira na tarefa de elucidar a estrutura religiosa do capitalismo: «O capitalismo é uma religião de mero culto, sem dogma». (Max Weber definiu a teologia como racionalização do dogma!) Esta definição de capitalismo deve ter chocado os marxistas ortodoxos - ou vulgares! - que acusavam Benjamin de ser menos marxista do que eles. No entanto, ela encontra-se formulada de diversos modos na própria obra de Marx. N. Bukharin foi talvez um dos primeiros marxistas a desmistificar a polémica em torno do espírito do capitalismo, isto é, da psicologia dos empreendedores, lembrando que os trabalhos de W. Sombart, Max Weber e Hermann Levy não acrescentavam nada de novo àquilo que tinha sido dito por Marx nas suas obras, nomeadamente n'O Capital, onde podemos ler estas palavras: «O protestantismo desempenha um papel considerável na génese do capitalismo, mesmo que seja somente pela transformação dos feriados tradicionais em dias úteis (de trabalho)». Conforme nos lembra Bukharin, Marx indicou em diversas ocasiões que «a mentalidade puritana, económica e ao mesmo tempo trabalhadora, obstinada, prosaica do protestantismo, alheio à pompa e ao brilho do catolicismo, era a mentalidade da burguesia no seu período de crescimento. Esta teoria valeu-lhe numerosas zombarias. Ora, agora, os sábios burgueses mais eminentes retomam-na, mas evidentemente sem a atribuir a Marx. Sombart mostra que a acumulação dos traços mais diferentes (sede de ouro, amor ao risco, espírito inventivo, aliados à arte de saber contar, a razão fria e a moderação judiciosa) deu como resultado aquilo que se denomina "mentalidade capitalista". Esta mentalidade, naturalmente, não se formou por si mesma; ela constituiu-se parcialmente com a modificação das relações sociais: ao mesmo tempo que o corpo do capitalismo se fortificava, o seu espírito desenvolvia-se; todos os traços fundamentais da psicologia económica modificavam-se: na época pré-capitalista, a ideia económica fundamental do nobre era a da "conveniência", daquilo que "fica bem para a sua posição" (o dinheiro é feito para ser gasto, escrevia S. Tomás de Aquino); a economia era gerida de maneira irracional, sem contabilidade exacta, a tradição e a rotina dominavam; a vida desenrolava-se num ritmo lento (os dias feriados formavam quase a metade do ano); a iniciativa e a energia faltavam; a mentalidade capitalista, que sucedeu à mentalidade senhorial feudal, está ao contrário fundada sobre a iniciativa, a energia, a rapidez, a renúncia à rotina, a contabilidade racional e a reflexão, a sede de acumulação, etc. A transformação completa das relações de produção foi acompanhada de uma transformação completa da mentalidade». Os Fragmentos de Benjamin previam um diálogo produtivo com os pensamentos de Max Weber e de Ernst Troeltsch, no sentido de elucidar a estrutura religiosa do capitalismo. A reconstituição desse diálogo apenas mencionado por Benjamin está fora dos nossos objectivos neste estudo: o que importa destacar aqui é o aprofundamento da tese de Weber e o seu alargamento a todas as correntes ortodoxas cristãs: «O capitalismo desenvolveu-se no Ocidente de forma parasitária sobre o cristianismo - o que não se demonstra apenas com o exemplo do Calvinismo, mas também com o das outras orientações ortodoxas cristãs. De tal modo que por fim a história do cristianismo se tornou essencialmente a do seu parasita, o capitalismo». Esta concepção do capitalismo como parasita do cristianismo leva Benjamin a aprofundar a tese de Weber, dando razão a Jaime Cortesão quando, na sua teoria da mística dos descobrimentos portugueses, apresenta o franciscanismo e as ordens mendicantes como preparação espiritual e geográfica - já no decorrer do século XIII - para o espírito laico, precisamente o espírito do capitalismo de Weber e Sombart: «O cristianismo na época da Reforma não favoreceu a emergência do capitalismo - transformou-se em capitalismo». (Jaime Cortesão pensa aquilo que permaneceu impensado - o inconsciente colonial - na obra de Benjamin: a colonização portuguesa e europeia do mundo recém-descoberto pelos navegadores!) Ora, quais são os traços que permitem identificar esta transformação do cristianismo em capitalismo? Benjamin destaca três traços da estrutura religiosa do capitalismo reconhecíveis já no presente, embora haja um quarto ou mesmo um quinto traços. Estes traços religiosos do capitalismo, o parasita do cristianismo, estão interligados entre si e, de certo modo, decorrem uns dos outros. Em primeiro lugar, «o capitalismo é uma pura religião de culto, talvez a mais extrema que alguma vez existiu. Nele, tudo tem apenas significado numa relação directa com o culto, não conhece uma dogmática específica, não tem uma teologia. É deste ponto de vista que o utilitarismo adquire a sua tonalidade religiosa». Benjamin define o capitalismo como uma religião de culto, sem dogma e sem teologia, apesar de Marx ter falado da teologia de mercado, o que não cria dificuldades à tese de Benjamin. Em segundo lugar, ao «carácter concreto do culto liga-se outra característica do capitalismo: a duração permanente desse culto. O capitalismo é a celebração de um culto sans rêve et sans merci. Nele não existem "dias de semana", não há um dia que não seja festivo no sentido terrível da ostentação de toda a pompa sagrada, da mais extrema intensidade da veneração». Em terceiro lugar, «o capitalismo é provavelmente o primeiro caso de um culto que não redime, mas deixa um sentimento de culpa. Neste aspecto, este sistema religioso acompanha a queda de um movimento colossal. Uma imensa consciência de culpa, incapaz de redenção, apodera-se deste culto, e nele a culpa, em vez de ser redimida, é universalizada, gravada na consciência, até que o próprio Deus é apanhado nesta rede de culpa, para que, finalmente, ele próprio se interesse pela sua expiação. Não se pode, assim, esperar que esta aconteça no âmbito do próprio culto (capitalista), nem também de uma reforma desta religião, que teria de se agarrar a qualquer coisa de sólido nela, nem tão-pouco na recusa dela. Da essência deste movimento religioso que é o capitalismo faz parte a sua capacidade de ir até ao fim, até à culpabilização final do próprio Deus, alcançando o estado de desespero no mundo a que ainda se aspira. É este o lado historicamente inaudito do capitalismo, o facto da religião já não ser uma reforma do ser, mas a sua aniquilação. É a expansão do desespero até ao ponto em que ele se transforma em estado religioso universal do qual se espera que venha a salvação. É o fim da transcendência de Deus. Mas Ele não está morto (como pensava erradamente Nietzsche!), foi absorvido pelo destino humano. Esta travessia do planeta dos seres humanos pela casa do desespero na solidão absoluta da sua órbita é o ethos que Nietzsche determinou. Este homem é o sobre-homem, o primeiro que a religião capitalista começa a realizar em consciência». Em quarto lugar, o Deus do culto capitalista «tem de ser dissimulado, e só pode ser invocado no zénite da sua culpabilização. O culto é celebrado perante uma divindade não amadurecida, e cada ideia que dela se faça, cada pensamento, ofende o mistério do seu amadurecimento». Estes traços religiosos do capitalismo - a religião do culto permanente, incapaz de redenção, que universaliza a culpa e leva a humanidade de todo o globo terrestre ao estado de desespero infinito, condenando o ser à aniquilação - permite a Benjamin esboçar uma reinterpretação de toda a filosofia dos tempos modernos, sobretudo das concepções de Freud, cujo recalcado é o capital que cobra juros ao inferno do inconsciente, e de Nietzsche, cuja figura do sobre-homem - o vulgo super-homem! - é aquele que chegou sem voltar atrás, sem arrependimento, portanto o homem histórico que fez explodir o céu através da potenciação do que de mais humano há no humano. Ora, este espírito que nos fala a partir das notas de banco ou, como sucede hoje, do cartão de crédito, permite levar mais longe a concepção do capitalismo como aniquilação do ser, digna de preocupação acrescida: a religião capitalista promove uma doença mental própria da época capitalista, bastando referir as situações sem saída (em termos mentais) e a pobreza (em termos materiais), com as primeiras a induzir a culpa e o medo colectivo. Como é evidente, não vou explicitar esta grande narrativa da modernidade, a da cultura do capitalismo que prende e aprisiona todos na rede da culpa universal, tanto os colonizadores como os colonizados, tanto os ricos como os pobres, tanto os jovens como os velhos, tanto os homens como as mulheres, tanto os adultos como as crianças: a minha preocupação incide sobre a natureza do salto apocalíptico. O capitalismo não pode melhorar-se e reformar-se a si mesmo, nem sequer pode ser recusado: a sua palavra de ordem não é a salvação mas a aniquilação do ser. Ora, sabendo que a História «Ã© o choque entre a tradição e a organização política» e que a Política é «a realização da essência do humano não elevada a uma potência superior», só há uma saída para esta situação sem saída - a expansão do desespero - em que o capitalismo nos lança: a sua destruição. A salvação conquista-se destruindo o capitalismo que conseguiu finalmente atingir o seu estado religioso universal - a culpa universal - no nosso tempo indigente. (O neoliberalismo é, na sua essência, religião de mercado, não uma religião da salvação mas uma religião do pecado. E as suas políticas monetaristas devem ser vistas como a consumação fatal e letal do fetichismo do dinheiro, um tema esquecido pelos marxistas. O crítica que os conservadores e os neoliberais fizeram ao marxismo, até mesmo antes do final da II Guerra Mundial, deve ser-lhes devolvida, porque afinal o capitalismo, o parasita do cristianismo, é uma religião que ameaça aniquilar o ser, lançando-nos a todos no desespero e no abismo.)

J Francisco Saraiva de Sousa

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Uma novela de Fernando Pessoa: O Banqueiro Anarquista

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Fernando Pessoa: Estátua no café A Brasileira,
no Chiado, Lisboa
«Por anarquismo entendo aquela doutrina social extrema que contende que não deve haver entre os homens outras diferenças ou desigualdades senão as naturais, nem pesarem sobre os homens outras peias ou outros males senão os que a própria Natureza dá... A abolição, portanto, de todas as castas, de aristocracia, do dinheiro, de todas as convenções sociais que promovem a desigualdade. A abolição, também, de todas as convenções sociais contra a natureza - as pátrias, as religiões, o casamento... Não era isto que v. entendia por anarquismo?» (Fernando Pessoa, 27D - 6 e 7)

Quem conheça a obra de Fernando Pessoa sabe que ele fracassou quando tentou fazer filosofia de forma sistemática e não espontânea. Se há um pensamento filosófico que habita a obra de Fernando Pessoa, ele não deve ser procurado nos seus textos filosóficos mas na sua própria poesia e, sobretudo, na sua sátira dialéctica: O Banqueiro Anarquista. A sátira dialéctica de Fernando Pessoa foi publicada no nº. 1 da revista Contemporânea, em 1922. Em 1935, Fernando Pessoa transmite a Adolfo Casais Monteiro a sua intenção de remodelar inteiramente o Banqueiro Anarquista, de modo a torná-lo acessível ao público europeu numa tradução para o inglês que estava a realizar. Dessa intenção de revisão do texto original restam apenas rascunhos que ajudam a clarificar algumas ideias do original, sem no entanto permitir substituí-lo por uma nova versão susceptível de conquistar o público europeu: estranho não é a própria intenção de remodelar o texto, estranho é considerá-lo na sua versão original como impróprio para consumo europeu. Fernando Pessoa que sonhava com o Prémio Nobel da Literatura parece não estar seguro dos seus próprios conhecimentos sobre o mundo contemporâneo e as suas doutrinas sociais e políticas. Nós não podemos alterar o texto original de Fernando Pessoa, nem sequer devemos construir a nossa própria versão de revisão. Cabe-nos apenas a tarefa de o ler e de o interpretar, de modo a actualizá-lo. Apesar das suas inúmeras edições, o Banqueiro Anarquista ainda não mereceu uma análise séria por parte do seu público português: os livros vendem-se mas geralmente não são lidos e muito menos interpretados. O título indica desde logo um contra-senso: como se pode ser banqueiro e anarquista ao mesmo tempo? Mas não é este aparente contra-senso que merece a nossa atenção: o que está em causa é uma alternativa, isto é, uma "escolha" entre capitalismo e anarquismo. Ao elaborar esta alternativa, Fernando Pessoa exclui automaticamente o socialismo e o comunismo, definidos como «regimes de ódio», mas o expediente usado para expor a alternativa elimina um dos seus elementos, como se não houvesse alternativa ao sistema burguês. O expediente usado - as convenções sociais versus natureza - não é um procedimento adequado para expor o conflito entre capitalismo e anarquismo, e Fernando Pessoa sabia isso quando partilhou a intenção de reformular o texto para consumo do público culto da Europa. O Ou... Ou... pessoano é uma falsa alternativa, ele mais não é do que a apologia fatal do regime burguês: eis a hipótese que procurarei demonstrar num outro texto dedicado à análise filosófica do Banqueiro Anarquista. Afirmar que Fernando Pessoa previu a queda do comunismo não é suficiente para lhe atribuir a tese do primado da política sobre a economia, aliás elucidada por Lenine: Fernando Pessoa nunca esteve na posse dos conceitos necessários para pensar a política. E nem sequer suspeitou que o seu expediente remonta ao conflito entre sofistas e socráticos, e, o que é mais importante, às doutrinas do contrato social. O anarquismo como abolição das convenções sociais devolve o homem ao seu estado de natureza. Afinal, o banqueiro é precisamente o animal que segue os seus instintos, obrigando os outros a submeter-se à tirania do dinheiro: «Ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social, e eu, só por mim, não posso fazer a revolução social» (Banqueiro anarquista). (Repare-se neste conceito-bloqueio: a tirania do dinheiro é definida como escassez de dinheiro: quem não tenha dinheiro está submetido à sua força tirânica, mas quem o tenha é livre. Enfim, o banqueiro anarquista é livre, no sentido da posse do dinheiro o libertar do reino da necessidade. Apologia ingénua do capitalismo! Ter dinheiro liberta o homem da sua tirania: a escassez de dinheiro que escraviza o homem. Capitalismo e anarquismo falam a mesma linguagem: a sátira dialéctica - afinal, o monólogo do banqueiro consigo mesmo! - converte o capitalismo numa fatalidade: o banqueiro anarquista liberta-se de modo egoísta da ditadura do dinheiro, não da tirania do capital, tornando-se capitalista, em virtude das suas qualidades naturais superiores. Fernando Pessoa que tanto lamentou as desigualdades sociais nunca chegou a compreender que o capital é uma relação social que produz a penúria de muitos e a fartura de poucos.) Outra forma de dizer que o contra-senso não reside no banqueiro anarquista que conseguiu conquistar de modo puramente egoísta a sua liberdade, subjugando - e não destruindo - a ficção do dinheiro, mas sim em opor o anarquismo ao capitalismo, como se o primeiro fosse um regime natural - sujeito à tirania das desigualdades naturais - e o segundo um regime de convenções e ficções sociais, cuja economia de mercado é, ela própria, anárquica ou, como diz o banqueiro anarquista, um "aglomerado de tiranias". As páginas escritas por Fernando Pessoa são de tal modo sedutoras que podem convencer plenamente o leitor, privando-o da capacidade de pensar e de criticar a construção do próprio texto na sua totalidade orgânica, que, quando meditado, traduz a falência da imaginação política de Fernando Pessoa. Infelizmente, sempre que procura pensar Fernando Pessoa perde-se, sem conseguir libertar-se da tirania do dinheiro tal como a define o banqueiro anarquista. (De certo modo, Fernando Pessoa descobriu à sua maneira a aporia fundamental do poder: a luta contra a dominação gera mais dominação. Este é o aspecto forte do seu pensamento, pelo menos nesta novela.)

Anexo: O banqueiro anarquista traça uma distinção entre anarquismo lúcido, o seu próprio anarquismo que lhe permitiu subjugar a ficção do dinheiro, e anarquismo estúpido, o dos anarquistas destituídos de dons naturais que matam a tiro os capitalistas sem destruir a tirania do capital, tarefa que atribui à revolução social. Ora, esta distinção é fundamental para compreender as contradições de todo o seu discurso, aparentemente dirigido contra a organização leninista do partido comunista. (A ditadura do proletariado é condenada!) Porém, ela mostra que o anarquismo não é uma alternativa ao capitalismo, na medida em que partilha com o seu suposto inimigo a mesma linguagem do egoísmo, dada como linguagem natural. Fernando Pessoa retoma muitas ideias pertencentes a grandes pensadores, mas parece que não as compreende, a menos que esteja a ridicularizar a sua recepção portuguesa. O interlocutor do banqueiro anarquista resigna-se facilmente, dando a sua anuência, sem conseguir elaborar um contra-discurso. Os rascunhos da versão ampliada procuram dar mais protagonismo ao interlocutor do banqueiro anarquista, mas não são suficientemente claros para possibilitar a reconstrução do contra-discurso.

J Francisco Saraiva de Sousa

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Walter Benjamin: Do crítico literário ao filósofo

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Walter Benjamin
«Pobreza de experiência: a expressão não significa que as pessoas sintam a nostalgia de uma nova experiência. Não, o que elas anseiam é libertar-se das experiências, anseiam por um mundo em que possam afirmar de forma tão pura e clara a sua pobreza, a exterior e também a interior, que daí nasça alguma coisa que se veja. E também não são sempre ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes é o contrário que se verifica: tiveram de "engolir" tudo isso, a "cultura" e "o Homem", e ficaram saturadas e cansadas. Ninguém se sentirá mais atingido pelas palavras de Scheerbart: "Vocês estão todos cansados - e afinal porquê? Porque não foram capazes de concentrar todas as vossas ideias num plano muito simples e muito grandioso". Ao cansaço segue-se o sono, e por isso não é raro vermos como o sonho compensa da tristeza e do desânimo dos dias, para demonstrar essa existência muito simples e muito grandiosa para a qual no estado de vigília nos faltaram as forças. Uma existência de Rato Mickey é um desses sonhos do homem de hoje. Uma existência cheia de milagres, que não se limitam a superar os prodígios da técnica, mas ainda se riem deles. Porque o que de mais estranho há nisso é o eles se produzirem todos sem maquinaria, improvisados, saindo do corpo do Rato Mickey, dos seus companheiros e dos seus perseguidores, das mais banais peças do mobiliário como das árvores, das nuvens ou dos lagos. A natureza e a técnica, o primitivismo e o conforto, fundiram-se aqui completamente. E diante dos olhos das pessoas cansadas das infinitas complicações da vida quotidiana, e para as quais a finalidade da vida se descortina apenas como ponto de fuga longínquo numa infindável perspectiva de meios, apresenta-se como redentora uma existência a cada momento auto-suficiente da forma mais simples e mais confortável, um modo de vida em que um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha e o fruto na árvore arredonda tão depressa como um balão insuflável. E agora é altura de recuar um passo e fazer o balanço.

«Ficámos pobres. Fomos desbaratando o património da humanidade, muitas vezes tivemos de o empenhar por um centésimo do seu valor, para receber em troca a insignificante moeda do "actual". À porta temos a crise económica, atrás dela uma sombra, a próxima guerra. "Preservar" é um verbo que se aplica hoje a um pequeno grupo de poderosos que, Deus sabe, não são mais humanos do que a maioria; geralmente, são mais bárbaros, mas não da espécie boa. Os outros, porém, têm de se arranjar, de maneira diferente e com muito pouco. Estão do lado daqueles que desde sempre fizeram do radicalmente novo a sua causa, com lucidez e capacidade de renúncia. Nas suas construções, nos seus quadros, nas suas narrativas, a humanidade prepara-se para, se necessário for, sobreviver à cultura. E o que é mais importante: faz isso a rir. Talvez esse riso soe aqui e ali a bárbaro. Seja. Desde que cada indivíduo de vez em quando ceda um pouco de humanidade àquelas massas que um dia lha devolverão com juros acrescidos.» (Walter Benjamin)

Theodor W. Adorno iludiu-nos a todos quando defendeu a tese de que Benjamin «escolheu permanecer completamente fora da tradição manifesta da filosofia». Uma distância quase infinita separa o pensamento filosófico de Benjamin da forma institucionalizada ou académica de fazer filosofia, é certo!, mas isto não significa que ele tenha abdicado da Filosofia: a expressão filosofia antifilosófica que constitui a corrente central da filosofia pós-hegeliana - tal como tem sido compreendida desde Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein! - não só é um oxímoro, como também não faz justiça aos grandes pensamentos filosóficos pós-hegelianos, a começar pelo pensamento de Karl Marx. A filosofia de Benjamin procura escapar aos parâmetros da filosofia institucionalizada, instalando-se não nas suas margens, como se pensa muitas vezes, mas num novo espaço em que a reflexão histórica e filosófica se associa à crítica do momento presente. A crítica de Benjamin é filosófica de lés a lés: o seu objectivo é fazer com que a filosofia abranja a totalidade da experiência, de modo a exprimir a experiência filosófica, a experiência da verdade. Ao tentar abarcar a totalidade da experiência à luz da experiência da verdade, Benjamin afasta-se da filosofia académica, e desde logo do neokantismo que dominava o meio académico alemão. O neokantismo tinha deixado de reivindicar a totalidade da tradição filosófica, refugiando-se numa teoria do conhecimento. Descontente com esta falta de ambição do neokantismo, se exceptuarmos a filosofia das formas simbólicas de Ernst Cassirer, Benjamin reivindica a totalidade da tradição filosófica, começando a fazer filosofia a partir dos objectos da experiência cultural. A Origem do Drama Trágico Alemão é o berço da filosofia de Benjamin: «O objecto da crítica filosófica é o de demonstrar que a função da forma artística é a de transformar em conteúdos de verdade filosóficos os conceitos materiais históricos presentes em toda a obra (de arte) significativa. Esta transformação do conteúdo material em conteúdo de verdade faz do declínio da força de atracção original da obra, que enfraquece década após década, a base do renascimento no qual toda a beleza desaparece e a obra se afirma como ruína». E, logo no Prólogo Epistemológico-Crítico, Benjamin formula a sua teoria da rememoração: «Como a filosofia não pode pretender falar em tom de revelação, isso só pode acontecer por meio de uma rememoração que recupere antes de mais a percepção primordial. A anamnese platónica não andará longe desta forma de rememoração. A diferença é que aqui não se trata de uma presentificação de imagens por via intuitiva; pelo contrário, na contemplação filosófica a ideia enquanto palavra solta-se do recesso mais íntimo da realidade, e essa palavra reclama de novo os seus direitos de nomeação. Mas na origem desta atitude não está, em última análise, Platão, mas Adão, o pai dos homens no papel de pai da filosofia. O acto adâmico da nomeação está tão longe de ser jogo e arbitrariedade que nele se confirma o estado paradisíaco por excelência, aquele que ainda não tinha de lutar com o significado comunicativo das palavras». O interesse de Benjamin pela literatura constitui desde o início um meio para elucidar as suas inquietações filosóficas, jurando fidelidade à tradição da filosofia. A filosofia de Benjamin faz parte integrante da tradição filosófica do Ocidente, para a qual deu o seu contributo, transformando-a e levando-a a expandir-se e a aprofundar a sua concepção de si mesma. (A Transformação da Filosofia de Karl-Otto Apel constitui um empreendimento pálido quando confrontado com o de Benjamin!) A leitura da filosofia de Benjamin exige uma reinterpretação de toda a história da filosofia, distinta daquela que foi realizada por Heidegger. O tema das semelhanças e das diferenças entre Heidegger e Benjamin tão do agrado dos filósofos americanos radicais não pode eclipsar a superioridade da filosofia de Benjamin em relação à filosofia de Heidegger: Benjamin é o filósofo seminal do momento presente. Adeus Jürgen Habermas! Adeus Karl-Otto Apel! Adeus Albrecht Wellmer! Hi, Susan Buck-Morss!

A tese que estou a defender é muito simples: Não há um Benjamin crítico literário, um Benjamin modernista, um Benjamin marxista, um Benjamin judeu, um Benjamin cabalista, por detrás dos quais se esconde um Benjamin filósofo; há apenas um único Benjamin, o Benjamin Filósofo que foi judeu e marxista. Graças à difusão de um ensaio de Hannah Arendt sobre a figura-retrato-pensamento de Benjamin, os filósofos americanos radicais foram provavelmente os primeiros a descobrir o carácter radicalmente filosófico do seu pensamento, embora nem sempre o tenham compreendido da melhor forma. Benjamin procurou a forma consumada da totalidade da experiência primeiro nas obras de arte e depois na história como um todo redentor, tomado como a totalidade em relação à qual o vivido (das Erlebnis) pudesse ser experienciado como verdade. Mas convém não distanciar demasiado estes dois períodos: ambos os períodos estão ligados entre si pela ideia fulcral de destruição (Destruktion) como condição de possibilidade da experiência (Erfahrung) no sentido filosófico de uma experiência da verdade. No pensamento de Benjamin, destruição significa a destruição de uma forma falsa de experiência como condição produtiva para a construção de uma nova relação do homem com o objecto. Assim, por exemplo, na Origem do Drama Trágico Alemão, a primeira grande obra de Benjamin, a alegoria destrói a totalidade ilusória do símbolo, arrancando-o do contexto e inserindo-o em novas constelações de significado construídas de modo transparente, e, na própria obra de Benjamin, a montagem destrói a continuidade da narrativa como condição para uma nova construção da história, na qual o tempo de agora (Jetztzeit) destrói a experiência da história como progresso, a continuidade da marcha triunfal dos vencedores, substituindo-a pelo par apocalíptico da catástrofe e da redenção. No ensaio Eduard Fuchs, coleccionador e historiador, Benjamin aborda o problema da história da cultura nestes termos: «Para o materialista histórico, a distância a partir da qual a história da cultura apresenta os seus conteúdos é ilusória e fundada numa falsa consciência. Por isso (Fuchs) a olha com reservas. Essas reservas seriam legitimadas por um simples olhar para o passado: o que ele aí descobre de arte e ciência tem uma proveniência que não pode deixar de o horrorizar. Tudo isso deve a sua existência não apenas ao esforço dos génios seus criadores, mas também, em maior ou menor grau, à escravidão anónima dos seus contemporâneos. Não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie. Nenhuma história da cultura fez ainda justiça ao que de essencial há neste facto, e dificilmente pode esperar fazê-lo». E, mais adiante, clarifica: «Em resumo: a história da cultura apenas aparentemente representa um avanço do ponto de vista, e nem aparentemente um avanço da dialéctica. Porque lhe falta o momento destrutivo que assegura o pensamento dialéctico e a autenticidade da experiência do historiador dialéctico. Aumenta com certeza o peso dos tesouros que se acumulam sobre os ombros da humanidade. Mas não lhe dá forças para os sacudir, e assim ficar com eles na mão». Esta ideia de que o momento destrutivo assegura o pensamento dialéctico é claramente explicitada no fragmento O Carácter Destrutivo das Imagens de Pensamento: «O carácter destrutivo só conhece um lema: criar espaço; apenas uma actividade: esvaziar. A sua necessidade de ar puro e espaço livre é maior do que qualquer ódio. (...) O carácter destrutivo tem a consciência do homem histórico, cuja afecção fundamental é a de uma desconfiança insuperável na marcha das coisas, e a disposição para, a cada momento, tomar consciência de que as coisas podem correr mal. Por isso, o carácter destrutivo é a imagem viva da fiabilidade». Benjamin faz da temporalidade do presente o momento da destruição: o seu interesse pelo presente como palco da experiência histórica leva-o a articular a sua teoria da experiência com a sua filosofia da história. Desta articulação resulta a originalidade filosófica de Benjamin: uma filosofia do tempo histórico que enfrenta o carácter do presente, num movimento de ruptura com qualquer tipo de historicismo que faça do presente um desdobramento do progresso. Ora, nesta nova filosofia da história, o passado depende da acção do presente, como demonstra a Tese V sobre a Filosofia da História: «A verdadeira imagem do passado  passa por nós de forma fugidia. O passado só pode ser apreendido como imagem irrecuperável e subitamente iluminada no momento do seu reconhecimento. "A verdade não nos foge": esta fórmula de Gottfried Keller assinala, na concepção própria do historicismo, precisamente o ponto em que essa concepção é destruída pelo materialismo histórico. Porque é irrecuperável toda a imagem do passado que ameaça desaparecer com todo o presente que não se reconheceu como presente intencionado nela». Dissociado da cronologia, o presente não pode ser definido como um mero ponto no tempo, porque, não sendo o nunc stans, ele resulta de um acto complexo de temporalização, sempre susceptível de ser contestada, como evidencia a Tese VI: «Articular historicamente o passado não significa reconhecê-lo "tal como foi". Significa apoderarmo-nos de uma recordação (Erinnerung) quando ela surge como um clarão num momento de perigo. Ao materialismo histórico interessa-lhe fixar uma imagem do passado tal como ela surge, inesperadamente, ao sujeito histórico no momento de perigo. O perigo ameaça tanto o corpo da tradição como aqueles que a recebem. Para ambos, esse perigo é um e apenas um: o de nos transformarmos em instrumentos das classes dominantes. Cada época deve tentar sempre arrancar a tradição da esfera do conformismo que se prepara para a dominar. Pois o Messias não vem apenas como redentor, mas como aquele que superará o Anticristo. Só terá o dom de atiçar no passado a centelha da esperança aquele historiador que tiver apreendido isto: nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. E este inimigo nunca deixou de vencer». A tradição e o presente só podem ser constituídos quando se tenta arrancar a tradição da esfera do conformismo, de modo a construir o presente na destruição e reconstituição da tradição. Deste modo, através da execução da tarefa de repensar a temporalidade histórica à luz desta concepção do presente, definimos e captamos filosoficamente o presente, estabelecendo um vínculo estreito entre ele e a acção (praxis política): Quebrar o contínuo da história dos vencedores, derrotar os vencedores.

J Francisco Saraiva de Sousa

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Três Sonetos de António Nobre

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Cidade do Porto: Ribeira
Estamos em Portugal, onde de vez em quando surge uma figura de génio que a mediocridade nacional se apressa a sepultar em vida. Nesta terra amaldiçoada pela Senhora Inveja, todas as figuras de génio foram sepultadas em vida, e, depois de mortas, as suas obras são encerradas em encadernações tumulares que invadem as livrarias a preços verdadeiramente proibitivos, como que a não incentivar a sua leitura. A cultura superior não é bem-vinda em Portugal, onde a cunha ou qualquer outro esquema corrupto valem mais do que todo o mérito de um homem nascido com a estrela da redenção. Não admira portanto que António Nobre tenha escrito estes versos: «Não me importas, País! seja meu Amo /O Carlos ou o Zé da T'resa... Amigos, /Que desgraça nascer em Portugal!» Sim, é uma desgraça, uma terrível desgraça, uma terrível fatalidade nascer em Portugal: o fatalismo que é atribuído a António Nobre não tem outro sentido a não ser o de um grito de desespero - o grito não escutado pelos carrascos! - daquele que é sepultado em vida por um corcel de alienados mentais. Portugal é o país maldito que sepulta em vida todos os que nasceram com a estrela da redenção: a figura de génio que tenha nascido nesta terra maldita é sempre-já exilada e enclausurada. O exílio interior é o destino de todos os portugueses de génio: «Que triste fado! /Antes fosse aleijadinho, /Antes doido, antes cego.../Ai do Lusíada, coitado!». O sepultamento em vida que é o exílio interior assume muitas formas, uma das quais é a negação do mérito. Em Portugal, todos são iguais, de modo terrivelmente nivelador, sobretudo depois desse fatídico dia que foi o 25 de Abril de 1974: os vizinhos - os malditos vizinhos! - da figura de génio não lhe reconhecem publicamente o mérito; roubam-lhe o mérito, apropriando-se das suas ideias como se elas lhes pertencessem: os portugueses são macacos de imitação que simulam ser e pensar aquilo que efectivamente não são e não pensam. Figuras absolutamente planas e superficiais que tomam emprestada uma profundidade que não lhes pertence. Quando um homem de génio como António Nobre se sente assaltado na sua essência única, no seu núcleo existencial, reage enaltecendo o seu próprio ego, o Eu-Virgílio: o carácter autobiográfico da poesia de António Nobre só pode ser compreendido como uma defesa do seu próprio eu num mundo que não tolera a diferença que se destaca da mediocridade nacional. Os portugueses comportam-se como zombies, mortos-vivos, que, para alimentar os seus corpos desabitados, precisam de sacar o sangue dos outros que são habitados por estrelas da redenção. O fatalismo dos portugueses de génio mais não é do que a filosofia que lhes permite conservar e proteger a autenticidade do seu núcleo existencial dos ataques da turba de medíocres. A afirmação do eu contra um mundo de corpos desalmados - a tirania da maioria desalmada! - constitui um acto de extrema coragem, cujo preço é a própria solidão. António Nobre (Porto: 1867-1900) publicou em vida uma única obra - Só, da qual assistiu a duas edições (1892, 1898), sendo as outras duas obras póstumas: Despedidas, que inclui um fragmento d' O Desejado (1902), e Primeiros Versos (1921). Hannah Arendt traçou uma distinção muito importante entre o estar isolado e o estar solitário: o indivíduo está isolado quando se encontra numa situação em que não pode agir porque não há ninguém para agir consigo, e está solitário quando se encontra numa situação em que, como pessoa, se sente completamente abandonado por toda a companhia humana. Deste modo, ao isolamento na esfera pública corresponde a solidão na esfera dos contactos sociais, sendo o primeiro um conceito político e o segundo um conceito existencial. Mas os dois conceitos não se excluem em certas situações distantes do governo totalitário, como o demonstra a condição de estar só de António Nobre. Epicteto ajuda a compreender esta condição do poeta portuense quando distingue entre o homem solitário, aquele que, apesar de estar rodeado por outros, não pode estabelecer contactos com eles, estando exposto à sua hostilidade, e o homem só, aquele que, estando sem companhia, pode desfrutar a companhia de si mesmo, já que tem a capacidade de falar consigo mesmo. A poesia de António Nobre é, toda ela, um diálogo de dois-em-um: o poeta aproveita a ocasião de não ter no mundo português um lugar reconhecido e garantido pelos outros concidadãos para estar consigo mesmo, na companhia do seu próprio eu, sendo assim dois-em-um, não só o Eu-António mas também o Eu-Portugal. A minha leitura do Só de António Nobre pretende apenas resgatar a sua poesia, dando resposta ao seu anseio tumular no reino da paz: «O tempo tudo põe no seu lugar e faz justiça a quem na tem». Ora, referindo-se à recepção da primeira edição do Só, António Nobre confessa em Janeiro de 1896: «Quando eu publiquei o meu livro, saíram-me ao encontro meia dúzia de bandidos que nos jornais me caíram em cima». A caricatura que Rafael Bordalo Pinheiro fez dele em 1892 mereceu-lhe este comentário, talvez o seu grande testamento: «Não devo ao meu país glorioso e lindo senão o acaso do nascimento. E com o parto do Só mais uma vez vi que a literatura portuguesa é uma Costa de Ãfrica de penas, lutas, horrores». António Nobre não deve nada a Portugal, a não ser o acaso do nascimento e o seu próprio exílio. Portugal é um túmulo, Portugal é um ermo, no qual os portugueses não deixam germinar o génio. Buscar a companhia de si mesmo, em resposta à hostilidade dos outros, num diálogo interminável do eu consigo mesmo, é um acto que se abriga desde logo na proximidade da morte: «Toda a dor pode suportar-se, toda! (...) /Mas uma não: a dor do pensamento! /Ai quem me dera entrar nesse convento /Que há além da Morte e que se chama A Paz!» O acto de pensar implica um afastamento do mundo, de modo a que aquele que pensa possa estar a sós consigo mesmo, mas o pensamento que se pensa a sós visa sempre encontrar o seu caminho num mundo comum, através do seu reconhecimento pelos outros. Porém, quando se perde o mundo, a garantia recíproca e a esperança de modificar o mundo real na companhia dos outros, como sucedeu com António Nobre, cujo mundo já não é o mundo real mas o mundo-desejo do Eu-António, aquele a quem os portugueses negaram todas as suas tentativas de renascimento, corre-se o risco de perder o próprio eu, desejando a sua aniquilação: o Eu-Saudade, o Eu-Portugal mais não são do que desejos - ou configurações do desejo - do Eu-António que pensa na vizinhança da morte. Mas o suicídio é também a possibilidade virtual de um assassinato colectivo: a morte de Portugal tumular e dos bandidos que o povoam. A poesia de António Nobre vacila entre o suicídio e o homicídio, ambos figuras do desejo, sem fechar a porta a um eventual resgate futuro, o qual implica a morte de Portugal e o seu renascimento periódico, duplo-movimento inscrito na terrível dialéctica entre o colectivo aniquilador e o individual criativo. Eis o legado de António Nobre que transita de génio em génio, longe dos zombies assassinos que se apoderaram do destino de Portugal, o país quase-totalitário que obriga os seus génios a "serem infelizes para serem grandes", para parafrasear uma frase de António Nobre escrita em 1888.

Eis os três sonetos de António Nobre:

Em certo Reino, à esquina do Planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Pais,
Há quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fora não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideais,
À má-fé, numa traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reais!

E, embora eu seja descendente, um ramo
Dessa árvore de Heróis que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo Ideal:

Nada me importas, País! seja meu Amo
O Carlos ou o Zé da T'resa... Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal! (Coimbra, 1889)

Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-Mundo, harto,
Pelo teu filho. Minha mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vezes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventre nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, mágica bebida!

Fora melhor não ter nascido, fora,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d'Ãfrica da Vida. (Coimbra, 1889)

Falhei na Vida. Zut! Ideais caídos!
Torres por terra! As árvores sem ramos!
Ó meus amigos! todos nós falhamos...
Nada nos resta. Somos uns perdidos.

Choremos, abracemo-nos, unidos!
Que fazer? Porque não nos suicidamos?
Jesus! Jesus! Resignação... Formamos
No Mundo, o Claustro-Pleno dos Vencidos.

Troquemos o burel por esta capa!
Ao longe, os sinos místicos da Trapa
Clamam por nós, convidam-nos a entrar:

Vamos semear pão, podar as uvas,
Pegai na enxada, descalçai as luvas,
Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar! (Coimbra, 1889)

J Francisco Saraiva de Sousa

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

O Triplo AAA de Portugal

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Descobrimentos, viagens e explorações portuguesas
Hoje as Agências de Rating classificam Portugal como LIXO, esquecendo que Portugal é o único país do mundo que merece o triplo AAA, uma classificação antiga que lhe foi dada pelo Padre António Vieira para apresentar a expansão portuguesa como Luz do Mundo. António Vieira pregou o Sermão de Santo António (1682) em Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, na ocasião em que o marquês das Minas, embaixador extraordinário de Portugal, fez a embaixada de obediência ao Papa Clemente X (1670). Eis um extracto desse Sermão:

«Ã‰ verdade que Portugal era um cantinho ou um canteirinho da Europa; mas nesse cantinho de terra pura e mimosa de Deus (...), nesse cantinho quis o Céu depositar a Fé, que dali se havia de derivar a todas as vastíssimas terras, introduzida com tanto valor, cultivada com tanto trabalho, regada com tanto sangue, recolhida com tantos suores, e metida, finalmente, nos celeiros da Igreja, debaixo das chaves de Pedro, com tanta glória.

«Medindo-se Portugal consigo mesmo, e reconhecendo-se tão pequeno à vista de uma empresa tão imensa, pudera dizer o que disse Jeremias, quando Deus o escolheu para profeta das Gentes: Et Prophetam in gentibus dedi te. E que disse Jeremias? Et dixit: A, A, A, Domine Deus, quia puer ego sum. A, A, A, Deus meu, onde me mandais que sou muito pequeno para tamanha empresa?

«O mesmo pudera dizer Portugal. Mas tirando-lhe Deus da boca estes três AAA, ao primeiro A, escreveu Ãfrica; ao segundo A, escreveu Ãsia; ao terceiro A, escreveu América; sujeitando todas três ao seu império, como Senhor, e a sua doutrina, como Luz: Vos estis Lux mundi» (António Vieira).

J Francisco Saraiva de Sousa

Pêro Vaz de Caminha: Um portuense no Brasil

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A primeira Missa nas terras de Vera-Cruz, 1500
Pêro Vaz de Caminha, filho do mestre da Balança da Moeda da cidade do Porto, nasceu no Porto em 1450, e morreu na Ãndia em 1501. Sucedeu ao pai no cargo de mestre da Balança da Moeda da cidade do Porto em 1476, sendo cavaleiro da Casa de D. João II e de D. Manuel. Em 1497, foi encarregado pela Câmara do Porto da redacção dos capítulos a serem apresentados nas cortes de 1458 em Lisboa. Viajou até à Guiné antes de 1500, ano em que acompanhou Pedro Ãlvares Cabral na viagem que os levou à descoberta do Brasil. A sua missão era assumir o cargo de feitor da Ãndia, onde morreu no ano seguinte, em virtude de um ataque dos mouros à feitoria. Eis um extracto da Carta do Achamento do Brasil (1 de Maio de 1500), carta enviada a el-rei D. Manuel para lhe dar notícia do achamento da terra do Brasil:

«(...) E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas da Páscoa, que foram 21 dias de Abril, topámos alguns sinais de terra (...). E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra.

«Primeiramente, de um grande monte mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas, ao Sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs mone o Monte Pascoal, e à terra a Terra da Vera-Cruz.

«(...) Ali ficámos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos adiante (...), até meia légua da terra, onde todos lançámos âncoras, em direito da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos. E dali houvemos vista de homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro.

«Ali lançámos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, e ali falaram. E o capitão mandou no batel, em terra, Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir para lá, acudiram pela praia homens, quando dois, quando três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, estavam ali dezoito ou vinte homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijos para o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos. E eles os depuseram. Ali não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de aves, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde, e não poder deles haver mais fala por azo do mar.

«A noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros, que fez caçar as naus, e especialmente a capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras e fazer vela (...). E sendo nós pela costa, obra de dez léguas donde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada; e meteram-se dentro e amainaram. E as naus arribaram sobre eles. E um pouco ante o sol-posto amainaram, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.

«E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou em uma almadia dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos. E um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não lhes aproveitaram. Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

«A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam nenhuma coisa cobrir ou mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços de baixo furados e, metidos por eles cada um seus ossos de osso, brancos, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, e agudos na ponta com um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço, e o que lhes fica entre o beiço e os dentes é feito como de roque-de-xadrez. E em tal maneira o trazem ali encaixado que lhes não dá paixão, nem lhes estorva a fala, nem o comer nem o beber.

«Os cabelos seus são corredios, e andavam tosquiados, de tosquia alta mais do que sobre-pente, de boa grandura, e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de aves, amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas (...).

«O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira, e uma alcatifa aos pés, por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço (...). E nós outros, que aqui na nau com ele imos, assentados no chão, pela alcatifa. Acenderam tochas. E eles entraram. E não fizeram nenhuma menção de cortesia, nem de falar ao capitão, nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão, e começou a acenar com a mão para a terra, e depois para o colar, como que nos dizia que em terra havia ouro; e também viu um castiçal de prata, e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata.

«Mostraram-lhes um papagaio pardo, que aqui o capitão traz: tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha: quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram, como espantados. Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, fartéis de mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e alguma coisa, se a provaram, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes  Ã¡gua em uma albarrada; tomaram cada um o seu bocado e não beberam; somente lavaram as bocas e lançaram fora.

«Viu um deles umas contas de rosário, brancas. Acenou que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. e depois tirou-as e enrolou-as no braço; e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo (...)

«Sábado pela manhã, mandou o capitão fazer vela e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga, e alta de seis e sete braças. E entraram todas as naus dentro e ancoraram-se em cinco, seis, ancoragem dentro tão grande e tão formosa e tão segura que podem jazer nela mais de duzentos navios e naus (...). À tarde, saiu o capitão-mor em seu batel, com todos nós outros, e com outros capitães das naus em seus batéis, a folgar pela baía, em frente da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o capitão não querer, sem embargo de ninguém nela estar. Somente saiu ele, com todos nós, em um ilhéu grande, que na baía está, e que na baixa-mar fica mui vazio (...).

«Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele, e assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esparavel e, dentro dele, levantar um altar mui bem corregido. E ali, com todos nós outros, fez dizer missa; a qual disse o Padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre alta, da parte do Evangelho.

«Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta, e nós todos lançados por essa areia; e pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos; o que foi muito a propósito e fez muita devoção.

«Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente (...), a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço (...).

«E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o Sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz, para melhor ser vista. E ali assinalou o capitão o lugar onde fizessem a cova para a chantar. E enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, abaixo do rio, onde ela estava. Trouxemo-la dali, com esses sacerdotes e religiosos diante, cantando, em maneira de procissão. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta. E quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela (a) ajudar-nos. Passámos o rio, ao longo da praia, e fômo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta. Ali andando nisto, viriam bem cento e cinquenta, ou mais.

«Chantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza (...), armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada (...). Ali estiveram connosco, a ela, obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de giolhos assim como nós. E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos de pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco, e alçaram as mãos, estando assim até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós (...). E, acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos (...). E houveram por bem que lançassem a cada um sua, ao pescoço. Pelo que se assentou o Padre Frei Henrique ao pé da cruz, e ali, um a um, atada em um fio ao pescoço, lançava a sua, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinquenta (...)» (Pêro Vaz de Caminha).

Na sua obra Visão do Paraíso, Sérgio Buarque de Holanda (1958) defende uma tese curiosa sobre a América Portuguesa que merece ser repensada: a obsessão do ouro tolheu a mente dos portugueses quando receberam na nau os dois mancebos índios, como se eles fossem capazes de entender uma cultura que os transcendia, logo eles que faziam parte de uma tribo antropofágica. O grande acontecimento da história mundial realizado pelos portugueses foi a descoberta do caminho marítimo para a Ãndia em 1498 pela frota de Vasco da Gama. Arnold Toynbee usou-o para formular uma nova periodização da história da humanidade, dizendo haver uma época pré-gâmica e outra pós-gâmica: quer dizer que uma é anterior ao feito maior dos navegadores portugueses, a outra posterior. Ora, nesta viragem decisiva da história, a primeira globalização, participaram portuenses, depois de terem contribuído para o desenvolvimento da arte de navegar, não só o Infante D. Henrique, mas também Tomé Lopes, autor das Navegações às Ãndias Orientais, e Pêro Vaz de Caminha, autor da famosa Carta do Achamento do Brasil, para só referir estes nomes. Cristóvão Colombo deu nome às civilizações ditas pré-colombianas, mas nós também podemos falar das culturas pré-cabralinas da América Portuguesa, duas das quais são as culturas tribais dos Tupinambás e dos Tupiniquins, dois grupos tribais rivais que se tornaram mais agressivos entre si a partir do momento em que os tupiniquins apoiaram os portugueses contra os tupinambás e os seus "aliados": os piratas franceses. Os historiadores brasileiros já utilizam essa designação quando falam da história pré-cabralina do Brasil. A historiografia do Brasil teve como pai fundador Pêro Vaz de Caminha, um cidadão do Porto, a cidade portuguesa que impulsionou o desenvolvimento da cultura urbana brasileira no período em que o Brasil acordava para a independência. As ligações entre o Porto e o Brasil são de tal modo profundas que podemos falar de um Porto Brasileiro - Júlio Dinis falou dele! - e de um Brasil Portuense.

J Francisco Saraiva de Sousa

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Padre António Vieira: Os Escravos Negros e a Devoção do Rosário

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Padre António Vieira (1608-1697)
«Uma das grandes coisas que se vê hoje no Mundo, e nós pelo costume de cada dia não admiramos, é a transmigração imensa de gentes e nações etíopes, que da Ãfrica continuamente estão passando a esta América. A armada de Eneias, disse o príncipe dos poetas que levava Tróia a Itália: Illium in Italiam portans; e das naus, que dos portos do mar Atlântico estão sucessivamente entrando nestes nossos, com maior razão podemos dizer que trazem a Etiópia ao Brasil.

«Entra por esta barra um cardume monstruoso de baleias, salvando com tiros e fumos de água as nossas fortalezas, e cada uma pare um baleato; entra uma nau de Angola e desova no mesmo dia quinhentos, seiscentos e talvez mil escravos. Os Israelitas atravessaram o mar Vermelho e passaram da Ãfrica à Ãsia, fugindo do cativeiro; estes atravessam o mar Oceano na sua maior largura, e passam da mesma Ãfrica à América para viver e morrer cativos (...). Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam e tecem as mulheres, se fazem os comércios; naquela, o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e se compra. Oh trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os riscos das próprias!

«Já se, depois de chegados, olharmos para estes miseráveis e para os que se chamam seus senhores, o que se viu nos dois estados de Job é o que aqui representa a fortuna, pondo juntas a felicidade e a miséria no mesmo teatro. Os senhores poucos, e os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferro; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé, apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás como imagens vilíssimas da servidão e espectáculos de extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à fé, que nos destes, porque ela só nos cativa o entendimento, para que, à vista destas desigualdades, reconheçamos, contudo, vossa justiça e providência! Estes homens não foram resgatados com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo Sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?

«E se as influências da sua estrela são tão contrárias e nocivas, como se não comunicam ao menos aos trabalhos de suas mãos, e como maldição de Adão, às terras que cultivam? Quem pudera cuidar que as plantas regadas com tanto sangue inocente houvessem de medrar, nem crescer e não produzir, senão espinhos e abrolhos? Mas são tão copiosas as bênçãos de doçura, que sobre elas derrama o Céu, que as mesmas plantas são o fruto, e o fruto precioso, abundante e suave, que ele só carrega grandes frotas, ele enriquece de tesouros o Brasil e enche de delícias o mundo. Algum grande mistério se encerra logo nesta transmigração (...).

«Estas são as considerações que eu faço, e era bem que fizessem todos, sobre os juízos ocultos desta tão notável transmigração e seus efeitos. Não há escravo no Brasil, e mais quando vejo os mais miseráveis, que não seja matéria para mim de uma profunda meditação. Comparo o presente com o futuro, o tempo com a Eternidade, o que vejo com o que creio, e não posso entender que Deus, que criou estes homens tanto à sua imagem e semelhança, como os demais, os predestinasse para dois Infernos: um nesta vida, outro na outra. Mas quando os vejo tão devotos e festivais diante dos altares da Senhora do Rosário, todos irmãos entre si, como filhos da mesma Senhora, já me persuado sem dúvida que o cativeiro da primeira transmigração é ordenado por sua misericórdia para a liberdade da segunda (...).

«Eis aqui, irmãos do Rosário pretos (...), eis aqui o vosso presente estado, e a esperança que ele vos dá do futuro (...). Neste estado da primeira transmigração, que é a do cativeiro temporal, vos estão Deus e sua Santíssima Mãe dispondo e preparando para a segunda transmigração, que é a da liberdade eterna. Isto é o que vos hei-de pregar hoje para vossa consolação. E reduzido a poucas palavras será este o meu assunto: que a vossa irmandade da Senhora do Rosário vos promete a todos uma carta de alforria, com que não só gozeis a liberdade eterna na segunda transmigração da outra vida, mas também vos livreis nesta do maior cativeiro da primeira. Em lugar das alvíssaras que vos devera pedir por esta boa nova, vos peço me ajudeis a alcançar a graça com que vos possa persuadir a verdade dela (...)». (Padre António Vieira, Sermão Vigésimo Sétimo, 1688, pregado na Baía à Irmandade dos Pretos de um Engenho.)

Verdade seja dita: os Sermões do Padre António Vieira ainda não foram alvo de uma hermenêutica subtil e profunda. O Sermão Vigésimo Sétimo faz parte da série Maria, Rosa Mística, devendo ser lido em ligação com o Sermão Décimo Quarto da mesma série, também ele pregado na Baía à Irmandade de Pretos de um Engenho em 1633. O conjunto aponta antecipadamente para uma teologia da libertação, como demonstraria uma hermenêutica demorada das duas transmigrações do Evangelho: In transmigratione Babylonis - a transmigração que levou os filhos de Israel da sua pátria para o cativeiro da Babilónia, e Et post transmigrationem Babylonis - a transmigração que os levou do cativeiro para a sua pátria. (A descrição das desigualdades sociais realizada por António Vieira no terceiro parágrafo deste Sermão traz à memória os textos célebres de Marx e de Engels sobre a exploração e a luta de classes!) Há, portanto, uma ambiguidade produtiva no modo como António Vieira trata as duas transmigrações bíblicas quando as usa para compreender a escravatura dos negros: a carta de alforria promete e garante a liberdade eterna - como consolação ao sofrimento terreno, sem fechar completamente a porta à possibilidade de uma libertação temporal do cativeiro. No entanto, embora fosse sensível à causa da Irmandade dos Pretos e solidário com o seu sofrimento, António Vieira vacila quando logo a seguir realça que o sangue, o suor e as lágrimas dos escravos negros de Angola alimentam e sustentam o Brasil, que não pode - na sua perspectiva - dispensar o seu trabalho forçado, sob qualquer pretexto: o trabalho escravo «enriquece de tesouros o Brasil e enche de delícias o mundo». E, tal como Bartolomeu de Las Casas, António Vieira defende que, para assegurar a liberdade dos Ameríndios, afinal os únicos indígenas brasileiros protegidos pelos jesuítas, é necessário aumentar a importação de escravos negros da Ãfrica Ocidental. O Sermão da Epifânia de 1662 combate os preconceitos raciais, mas não rompe com a justificação ideológica da escravatura dos negros que trabalhavam nos engenhos de açúcar, com recurso a uma teoria engenhosa da recompensa adequada no Paraíso: «Trabalhemos e rezemos, do ar viveremos, no céu comerão bolos os que vivem como tolos». (Oh, infelizmente, hoje são os portugueses que vivem como tolos sem saber se comerão bolos amanhã! A conversa informal entre Vítor Gaspar, ministro das finanças português, e Wolfgang Schauble, ministro das finanças alemão, foi simplesmente humilhante para Portugal! Sádico em Portugal, Vítor Gaspar é masoquista no exterior, exibindo uma submissão digna de açoite!)

J Francisco Saraiva de Sousa


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