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ABRUPTO
17.2.12

(JPP)

COISAS DA SÃBADO:
 TALVEZ NA GRÉCIA FOSSE POSSÃVEL FAZER DE OUTRA MANEIRA

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PREVENÇÃO
O que digo a seguir aplica-se (para já) apenas à Grécia. Eu não pensO que nós somos assim muito diferentes dos gregos, mas, na verdade, também “não somos a Gréciaâ€. Não penso que o que escrevo a seguir se aplique a Portugal. Pelo menos para já e talvez nunca. 

SE O TEMPO VOLTASSE ATRÃS 

 Vamos voltar aos gregos que vão continuar no mesm caminho sem saída, com duríssimas medidas de austeridade, semi-aplicáveis, e com o caos que elas geram, num estado mínimo quanto a impostos, pagamentos de serviços, portagens, etc. e com um espectro político muito à esquerda, e, na esquerda da esquerda, com muitos grupúsculos extremistas adeptos da violência. Ah! e com militares que não são pacíficos. 

Vamos fazer o exercício de voltar ao dia em que o governo grego percebeu que estava falido. Sabemos o que aconteceu a partir daí e ainda estamos a meio da história, cujo fim caótico e perigoso está como que pré-anunciado. Ninguém acredita que aquilo que os credores obrigam os gregos a fazer seja eficaz, nem os gregos, nem os credores. Voltemos a esse dia inicial da bancarrota e vejamos um curso alternativo das coisas, com a vantagem de sabermos o que aconteceu, que faz com que isto seja muito especulativo. 

Vamos admitir que nesse dia o governo grego reunia, entendia que o que a Europa (os alemães) lhe pediam para “salvar†a Grécia era, não só incomportável, como inexequível, e que, a prazo, a Grécia teria mesmo que sair do euro e falir. E que, ao fazer esta análise, resolve tomar a iniciativa dupla de proclamar a falência grega e a saída do país do euro. 

(Continua.)

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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2164

"Rule by patience, Laughing Water! "
 
(Longfellow)

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16.2.12

(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2163

Now fades the last long streak of snow,
Now burgeons every maze of quick
About the flowering sqares, and thick
By ashen roots the violets blow.

 
(Alfred, Lord Tennyson)

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15.2.12

(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2162 - Time makes more converts than reason

"PERHAPS the sentiments contained in the following pages, are not YET sufficiently fashionable to procure them general favor; a long habit of not thinking a thing WRONG, gives it a superficial appearance of being RIGHT, and raises at first a formidable outcry in defence of custom. But the tumult soon subsides. Time makes more converts than reason."


(Thomas Paine, Common Sense)

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14.2.12

(JPP)

 
Clicar na imagem.
Hoje o verdadeiro arranque dos Estudos.


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13.2.12

(JPP)

ESPÃRITO DO TEMPO:  HOJE
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Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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(JPP)

A NOVA LUTA DE CLASSES

[image]Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História. 


É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo", não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.


Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.


A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História. 


A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes "assiste". Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d"Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.


O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.


Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e s?? depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado. 


O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito" na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.


A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis. 


Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autocentrados".

(Versão do Público de 10 de Fevereiro de 2012.)

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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2161 - Looking For a Sunset Bird in Winter 

The west was getting out of gold,
The breath of air had died of cold,
When shoeing home across the white,
I thought I saw a bird alight.

In summer when I passed the place
I had to stop and lift my face;
A bird with an angelic gift
Was singing in it sweet and swift.

No bird was singing in it now.
A single leaf was on a bough,
And that was all there was to see
In going twice around the tree.

From my advantage on a hill
I judged that such a crystal chill
Was only adding frost to snow
As gilt to gold that wouldn't show.

A brush had left a crooked stroke
Of what was either cloud or smoke
From north to south across the blue;
A piercing little star was through. 
(Robert Frost)

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12.2.12

(JPP)



EARLY MORNING BLOGS  
2161 - The Way Through the Woods


They shut the road through the woods
Seventy years ago.
Weather and rain have undone it again,
And now you would never know
There once was a road through the woods
Before they planted the trees.
It is underneath in the coppice and heath,
And the thin anemones.
Only the keeper sees,
That where the ring-dove broods,
And the badgers roll at ease,
There was once a road through the woods.

Yet, if you enter the woods
Of a summer evening late,
When the night-air cools on the trout ringed pools
Where the otter whistles his mate
(They fear not men in the woods
Because they are so few)
You will hear the beat of a horse's feet
And the swish of a skirt in the dew,
Steadily cantering through
The misty solitudes
As though they perfectly knew
The old lost road through the woods . . .
But there is no road through the woods.


(Rudyard Kipling)

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11.2.12

(JPP)

  HOJE DE NOVO 
Cobertura em directo das manifestações de hoje.

 Chegada das camionetas para manifestação da CGTP.

MANIFESTAÇÃO CONTRA A NOVA LEI ANTI-PIRATARIA (ACTA) (LISBOA, 11 DE FEVEREIRO DE 2012)





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(JPP)

COISAS DA SÃBADO: O CARNAVAL

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Acabar com as tolerâncias de ponto, que são só e apenas “tolerânciasâ€, é inevitável quando se está a acabar com os feriados. Na actual situação económica e financeira, é uma medida inevitável e aceitável. Infelizmente, nos dias de hoje as medidas aceitáveis estão a ser vendidas com uma carga punitiva que acaba por as tornar muito mais conflituosas do que seriam se o governo se limitasse a decidir com discrição e reserva em vez de nos dar uma lição de moral por junto. 

Mas uma coisa é a justeza da decisão de acabar com a tolerância do Carnaval, outra é a má qualidade da implementação da decisão. A forma como esta decisão foi tomada e anunciada é um case study de incompetência. É que uma coisa é o domínio da ideologia e do discurso punitivo, outra a qualidade da governação. Pode acaso saber-se a razão pela qual as tolerâncias de ponto, mais ou menos institucionalizadas como é o caso do Carnaval, não foram levantadas a tempo e horas quando se começou a discutir os feriados? Desde Outubro de 2011 que tal era suposto acontecer e, pelo menos minimizava os prejuízos com contratos e despesas entretanto feitas. Agora fazê-lo em vésperas dos Carnavais preparados, que têm também valor económico para muitas localidades, é pelo menos negligência pura. Por outro lado, o Governo parece desconhecer que, se para os funcionários públicos o Carnaval é uma “tolerância†(e lá vão os deputados pressurosos mostrar que eles também são funcionários públicos…), para muitas das áreas da nossa economia ele está contratualizado em acordos de empresa e sector. Uma parte importante da economia nacional, incluindo a principal exportadora a AutoEuropa, assim como a Secil, a Cimpor, a Brisa, a banca, os seguros, o pessoal das autarquias com festas organizadas (pelo menos Ovar, Torres Vedras, Mealhada, Carregal do Sal, Loulé e Sesimbra) e muita da construção civil, fecha no dia de carnaval. O resultado é dar uma imagem pública de desigualdade, caos e falta de autoridade, que funciona também como um irritante inútil.

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(JPP)

MUNDO DOS LIVROS

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(JPP)


EARLY MORNING BLOGS  
2160 - Não Sejamos Inteiros numa Fé talvez sem Causa  
 
Meu gesto que destrói 
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.


(Ricardo Reis)

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10.2.12

(JPP)

 
Clicar na imagem.
O número zero dos Estudos Sobre o Comunismo saiu em Julho de 1983, fará em 2013 trinta anos. Do seu Conselho de Redacção faziam parte Fernando Rosas, Rogério Rodrigues, Maria Goretti Matias,  António Moreira,  José Alexandre Magro (“Ramiro da Costaâ€).  Manuel Sertório e eu próprio, que era o seu director. Era um grupo heterogéneo, mas na sua maioria tinha passado pela oposição à ditadura antes do 25 de Abril.  O decano do grupo, mais velho do que todos os outros, era Manuel Sertório, um militante da oposição portuguesa com um papel muito importante na Seara Nova, no exílio de Delgado no Brasil, nos eventos  da FPLN em Argel. Desde meados da década de cinquenta,  não há história da oposição sem Manuel Sertório e até praticamente à sua morte, o seu companheirismo e o seu testemunho foram fundamentais. A ele se juntavam Fernando Rosas, que tinha vindo do MRPP e iniciava a sua carreira académica, António Moreira e José Alexandre Magro, ambos com publicações na área da história do movimento operário, e que tinham sido militantes da UDP, Rogério Rodrigues que escrevia sobre o PCP no jornal O Jornal e Maria Goretti Matias a trabalhar na génese daquilo que viria a ser o arquivo do ICS.  Muitos outros amigos colaboraram com a revista, no arranjo gráfico, com artigos e com outros contributos.

Fora de Portugal Annie Kriegel e Stephane Courtois, cuja revista Communisme tinha servido de inspiração aos Estudos, apoiaram sempre a iniciativa. A seu convite participei nos seminários que Kriegel organizava em Nanterre, e, com Stephane Courtois, em várias actividades na França e na Alemanha, com o objectivo de criar uma rede de estudos a nível europeu sobre o fenómeno do comunismo, fora da história “oficial†e do proselitismo anti-comunista, a tenaz que durante muito tempo condicionou a análise de um dos fenómenos mais importantes do século XX. Um dos frutos destas iniciativas veio a ser o Livro Negro do Comunismo e, mais tarde, a explosão documental que o fim da URSS e do “sistema comunista mundial†(a expressão era de Kriegel) trouxeram, tornando obsoletos muitos estudos anteriores a 1991.

Publicar  em 1983 uma revista como esta tinha dificuldades inimagináveis nos dias de hoje. O “campo†de estudos académicos do comunismo em Portugal não existia, muito menos o dos estudos sobre o PCP. Mais do que ser pioneira nessa matéria, – a revista “abriu†toda uma temática da história contemporânea, – a sua própria existência era entendida na época como uma provocação pelo PCP e pela esquerda radical, isto numa altura em que estas instituições eram muito mais poderosas do que nos dias de hoje e detinham uma forte hegemonia nos meios intelectuais. À direita este tipo de “estudos†eram tidos como academicamente impuros. A história académica do período contemporâneo era dominada então pelo estudo do Estado Novo., muito mais pacífico do que a do comunismo. Tudo isto está felizmente  no passado, mas não totalmente. O facto do PCP ser um dos poucos partidos comunistas sobreviventes em todo o mundo que ainda mantém fechados os seus arquivos, continua a funcionar como um bloqueio para o aggiornamento da sua história, prendendo-a ainda no ciclo de “revelações†e negações, de que de há muito se libertou a história do comunismo em muitos países.

Os Estudos sobre o Comunismo existem na Rede desde 2003, numa primeira série digital (2ª se contarmos com a de papel)  aqui e numa segunda série aqui,  com altos e baixos até 2009, altura em que a manutenção do EPHEMERA  me levou a deixar de a actualizar. Embora o problema do tempo continue sempre cada vez mais premente, vou tentar retomar este trabalho que, nos primeiros tempos, será ainda muito imperfeito. Há bibliografias para actualizar, sistemas de categorias por aperfeiçoar, ligações a verificar e a actualizar, e muito material recolhido nos últimos três anos por publicar. Pouco a pouco, talvez se consiga retomar uma sequência regular.

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(JPP)

COISAS DA SÃBADO: MENOS PIEGAS 

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Não conheço discurso de Passos Coelho que melhor retrate a retórica oficial deste governo do que aquele que fez esta semana numa escola privada de Odivelas em que deu aulas. O grupo de que faz parte essa escola tem um conjunto de edições cujo “eduquês†deveria assustar o Ministro da Educação, e inclui uma intitulada “contra o terror do neoliberalismo†assim anunciada 

Com os seus mundos utópicos de poder, comércio e rentabilidade, o neoliberalismo introduziu uma nova Era Dourada, na qual a lógica do mercado governa agora cada aspecto dos media, da cultura e da vida social – desde a escolarização aos cuidados de saúde. À medida que o contrato social se torna uma memória longínqua, o novo “estado empresarial†distancia-se a si próprio dos trabalhadores e grupos minoritários, que se tornam cada vez mais descartáveis num novo tempo de incerteza e de medo cultivado. 

Não sei se ofereceram o livro ao Primeiro-ministro. 

Dito isto, Passos Coelho explicou a epifânia adâmica que o motiva e que não sei se assusta mais pela ingenuidade, ou se pela inconsciência. Previno desde já quem ache que estas coisas são do domínio da ideologia, que ao célebre neoliberalismo que a escola acha um “terrorâ€, não lhe dou esse estatuto. É mais uma colecção de lugares comuns que estão na moda, a vulgata do “pensamento único†dos nossos dias. Emerge da crença de que o que está em curso é uma espécie de revolução puritana do Bem contra o Mal (o apelo à “transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos muito preguiçosos ou, às vezes, demasiado autocentradosâ€, por outros “descomplexados, mais abertos, mais competitivosâ€) e dá como exemplo nem mais nem menos do que a história do feriado do Carnaval (cito o Público): 

A “diferença†entre uma atitude ambiciosa e exigente e outra “agarrada ao passado†(…) considerando que há quem prefira continuar a “lamentar-se com as medidas, com os feriados, com o Carnaval†em vez de lançar “mãos à obraâ€. (…) como foi “caricato†aquilo que aconteceu no ano passado, quando a troika estava em Portugal para negociar a assistência financeira: “Quem emprestava dinheiro trabalhava enquanto o país aproveitava os feriados e as pontesâ€. 

A senhora Merkel não diria melhor: a luta de classes é entre “preguiçosos autocentrados†e “descomplexados competitivosâ€, no palco dessa celebração pagã que é o Carnaval. Percebem melhor porque acho que a ideologia não é chamada para estas coisas? Depois vêm os conselhos aos portugueses para não os deixar cair na tentação do pecado (na língua que ele usa chama a isto “enfatizar a relevânciaâ€): 

(…) criticando ainda discursos que consideram que há “demasiada austeridadeâ€, que as medidas adoptadas para corrigir os défices do país são “muito difíceis†e, portanto, é melhor “andar para trás†e voltar “a gastar o dinheiro†que o país não tem, até porque “o FMI e a UE hão-de emprestar mais dinheiro, que remédioâ€, já que Portugal faz parte da zona euro. 

Admito que se possa dizer que é isto que o PCP e o BE defendem, ou até que o seu companheiro de estrada no PS, sugere. Mas este regresso ao passado está bem longe do sentimento da maioria dos portugueses, que, para bem do Governo, sabe que a austeridade é necessária. Porém, esta interiorização da inevitabilidade da austeridade, não chega para um novo puritano. Tem que haver expiação dos pecados, ou seja tem que se mexer na cabeça e no corpo das pessoas para extirpar o mal e, para isso, aconselha os portugueses a serem “menos piegasâ€. Num país civilizado, bastava esta frase, no actual contexto de crise violenta para as pessoas, para derrubar um governo. Aqui, a sorte do governo é que as pessoas ainda são muito complacentes, ou, se se quiser, “piegasâ€. 

Esta espécie de revolucionarismo de varinha mágica é bem evidente no que disse sobre a “falácia†

“de que as grandes reformas levam anos a produzir efeitosâ€: “Não é verdade. (…) As pessoas ajustam-se rapidamente à mudança. Mas tem de haver uma mudança (…). Os agentes ajustam-se muito rapidamente e antecipam os resultados quando há credibilidadeâ€

A palavrinha “agentes†denuncia o economês, mas a frase toda denuncia a ideia tecnocrática típica dos “descomplexados, mais abertos, mais competitivosâ€, de que as sociedades se “gerem†como as empresas, um dos maiores lugares comuns que presidem a este “pensamento único†dos dias de hoje. Não, senhor Primeiro-ministro, os “agentes†não se “ajustam muito rapidamente†ao empobrecimento de uns e às prebendas de outros, à linguagem que reduz os contratos sociais que são “direitos adquiridos†a apenas contratos empresariais das PPP, à ideia de que que quem não é “competitivo†merece o desemprego e a miséria e ainda por cima ser insultado de “piegasâ€.

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(JPP)



EARLY MORNING BLOGS  
2159
 
Bonis nocet quisqus malis perpercit.

(Publius Syrus)

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7.2.12

(JPP)



EARLY MORNING BLOGS  
2158
 
Corruptisima re publica plurimae lege.

(Terêncio)

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6.2.12

(JPP)

PERGUNTAS QUE NÃO LEVAM A PARTE NENHUMA

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POR QUE RAZÃO OS BLOGUES TÊM CADA VEZ MENOS IMPORTÂNCIA?

Os blogues são colunas de opinião pessoal, diários, listas de notas, colecções de documentos, fotografias, vídeos, auto-editados, ou seja, sem terem qualquer intermediação como é suposto existir nos órgãos de comunicação social. Essa intermediação faz-se pelo trabalho de edição e pelos saberes e regras do exercício profissional do jornalismo. Os blogues podem aproximar-se muito dos órgãos de comunicação social, podem inclusive ser feitos com as regras do jornalismo, podem inclusive em muitos casos produzir jornalismo, mas sendo auto-editados são mais parecidos com as edições de autores ou com revistas em que o seu criador define todas as condições da sua publicação. A facilidade e gratuitidade da sua plataforma de publicação, a dimensão do seu público potencial e a sua inserção nos mecanismos da Rede, como é o caso do hipertexto, da interactividade, da conjugação com as redes sociais, tornam-nos uma nova realidade comunicacional.

Os blogues, com este ou outro nome, vieram para ficar. Os blogues são a "voz própria" individual, potencialmente de todos para todos no espaço público, mesmo que o sejam apenas para meia dúzia de amigos e não haja nenhuma garantia, bem pelo contrário, de qualidade e interesse dessa voz. Isso é novo, e ainda nada o substituiu e não desaparecerá pelo facto de haver Facebook ou o Twitter, que exercem funções diferentes de forma diferente. Aumentou imenso a logomaquia no espaço público, com todos os defeitos de irrelevância, presunção, arrogância, ignorância e pura tontice, do que se diz, mas o instrumento está lá e tem um papel social ineludível.

Há uma parte da chamada blogosfera nacional em que os blogues políticos tiveram e tem um papel central. Não é nada que não fosse previsível, dada a grande politização do espaço público, em que apenas o futebol, com outras características, ocupa um papel de relevo semelhante. Essa parte da blogosfera política está em profunda crise e explica por que os blogues políticos têm cada vez menos importância. Há várias razões para tal acontecer, e vou referir apenas três: a agenda dos blogues tornou-se a agenda comunicacional; os blogues tornaram-se espelhos miméticos dos partidos e fracções políticas, e os blogues são hoje uma "área de negócio", quer em termos da gestão de carreiras individuais, principalmente no plano político, quer para agências de comunicação, marketing, etc., que actuam nesse meio para servirem os seus clientes. Tudo isso significa que os blogues políticos perderam independência, autonomia e transparência. São por isso menos interessantes, menos importantes e tem menos leitores.

A agenda dos blogues é hoje a da comunicação social, interagindo mais a favor dos mediado que dos blogues. Ou seja, os temas não só são cada vez mais os mesmos, como a relação de "novidade" vem dos jornais para os blogues e não o contrário. Nos primeiros tempos da blogosfera, os blogues discutiam e cobriam muito do que não vinha na comunicação social e essa diferença introduzia novidade e interesse. Os blogues tinham que ser lidos para se saber o que tinha ocorrido num colóquio, num espectáculo, num evento, que a comunicação social não cobria, e ao mesmo tempo aproximavam-se dos acontecimentos com pontos de vista muito diferentes e fora do ciclo excitação - esquecimento dos mediatradicionais. Foi nos blogues que se "ressuscitou" uma questão que os mediajá tinham enterrado, a do aeroporto da Ota, e foi nos blogues que se suscitaram as dúvidas sobre a carreira profissional do primeiro-ministro de então. Quer uma, quer outra questão tiveram imensas consequências que ainda estão "vivas" hoje.

Ao mesmo tempo a "cor" política dominante nos blogues era muito diferente da que dominava o discurso dos media, e isso dava-lhes um sistema novo de referências, temas, questões, fora do mainstream. Os blogues estavam ou mais à direita ou mais à esquerda do que o mainstream, e muitas vezes pareciam verdadeiros ET ideológicos e políticos, que fascinavam, para o bem e para o mal, um novo tipo de leitores jovens que faziam a sua aprendizagem política mais na Rede do que nos mediaclássicos. Com o tempo, isto foi mudando e o que parecia então radical e novo tornou-se cada vez mais o novo mainstream, à medida que os mediacomeçavam a recrutar colunistas nos blogues, com raras excepções sem grande sucesso, e os partidos políticos da oposição ao PS começavam a deslocar-se para o interior dos blogues, encontrando aí novas formas de recrutamento e criando expectativas crescentes de carreira, quando se começou a dar a mudança política.

A mudança política de 2011 foi mortífera para os blogues, começando a notar-se os seus efeitos perversos cerca de dois anos antes do fim do "socratismo", quando, muito à portuguesa, começou a debandada para a "zona de conforto" que a nova situação anunciava e mais tarde concretizou. Infelizmente para os blogues, bastou um ciclo de mudança política para mostrar como todos os defeitos da vida política portuguesa - o espírito de obediência, a falta de independência crítica, a absurda redução de tudo à dicotomia situação/oposição, e o puro oportunismo pessoal de um país em que a fome é muita e os empregos escassos -, para tornar os blogues meros acrescentos dos partidos políticos e das suas facções. O clubismo político instalou-se e com ele a desertificação ideológica, os silêncios e as falas de conveniência, a submissão ao novo unanimismo, o espírito de claque em guerra com os adversários, e de um modo geral a completa mediocridade daquilo que passa por ser o debate político em Portugal. Os blogues políticos parecem-se cada vez mais com secções das "jotas" partidárias.

Por último, os blogues perderam transparência, à medida que se tornavam cada vez mais "lucrativos". As agências de comunicação e marketing começaram a investir nos blogues, sempre sensíveis ao que "estava a dar", a promiscuidade e o trade offcom os jornalistas acentuou-se, os partidos políticos e as redes de poder, como certas lojas maçónicas, começaram a recrutar nos blogues. O Governo Sócrates criou um falso blogue anónimo para intervir na blogosfera, usando informações e meios governamentais, o Governo Passos Coelho foi aos blogues buscar pessoal político, assessores, gente do marketing, jornalistas cuja opinião política era exposta nos blogues, em particular para criar novas equipas de propagandistas.

Todos os tiques do confronto político subjugado à carreira e ao interesse, se passaram com armas e bagagens para os blogues, e desertificaram o meio. Com o tempo, o instrumento perderá toda a eficácia, que já é pequena, e um processo natural de depuração se irá realizar. À medida que a blogosfera perder o seu impacto na política deixará de ser interessante para muita gente, e isso poderá de novo suscitar uma outra blogosfera diferente. Ou não.

Eu também tenho um blogue e deixo aos meus leitores o julgamento sobre em que medida se me aplicam as críticas que faço ao meio. E também convém enunciar que há excepções, quer pela qualidade de escrita e análise, quer pela independência e autonomia. Mas são excepções, não servem para caracterizar a coisa.

AS PERGUNTAS QUE SE SEGUEM:

Por que razão o "modelo" das Forças Armadas, criado, por esta ordem, pela JSD, JS PSD e PS, não é "sustentável"?

Por que razão a República Popular da China vai condicionar a nossa política externa?

Por que razão é que Obama, mesmo quando faz mal, faz bem?

Por que razão a comunicação social dá importância a coisas sem importância nenhuma?

(Versão do Público de 4 de Fevereiro de 2012.)

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5.2.12

(JPP)

MUNDO DOS LIVROS


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Estante "por ler".

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(JPP)


EARLY MORNING BLOGS  
2157

« Il est plus facile de légaliser certaines choses que de les légitimer. »

(Chamfort)

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4.2.12

(JPP)

ESPÃRITO DO TEMPO:  HOJE
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Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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(JPP)

 O GENEPSD

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Estou a ler, estou a ler... Com muita dificuldade porque é  confuso, contraditório, sem uma linha nem direcção, e muito menos um "gene". Aliás, esta modernice do GenePSD é apenas e só isto, porque é suposto não haver transmissão genética dos caracteres adquiridos e no PSD havia a tradição de se considerarem duas realidades programáticas: o programa escrito e o "programa não- escrito", a história e a memória do partido. Num partido sui generis como o PSD, o "programa não escrito" é muito relevante, mas compreendo que a memória possa ser incómoda. Para além disso, convenhamos, que alguns caracteres adquiridos não são brilhantes...
Este livro, tanto quanto se pode concluir numa primeira leitura rápida, é  uma síntese, usando a palavra síntese com benevolência, entre citações de Sá Carneiro, aquilo que os seus autores pensam ser o pensamento de Mounier, e umas frases de Aguiar Branco, mais as de alguns colunistas mais ou menos na moda à direita. Isso não significa que o documento não seja interessante, porque dá um retrato  das enormes dificuldades em compatibilizar a orientação ideológica da actual governação e o "gene" fundacional do partido, o que leva por reacção alguns textos a serem ultra-"sociais democratas", mas apenas no carácter retórico e e com efeito proclamativo, sem substância. Na sua apresentação, tanto quanto pude ver  pela comunicação social, Passos Coelho ainda contribuiu mais para a confusão misturando aquilo que na tradição social-democrata é a separação entre o "programa máximo" (na verdade, o programa do partido) e o "programa mínimo" (o programa eleitoral e certos aspectos dos programas de governo). Chegou ao ponto de incorporar o programa da troika como tendo a mesma identidade do "programa mínimo" (não lhe chamou assim, mas é o que é)  do PSD, algo que significa que, pelos vistos, este livro não leu.

NOTA: Uma nota sobre Mounier (em complemento ao que escreveu hoje Vasco Pulido Valente no Público):

Não se percebe que Mounier seja citado sozinho como o ideólogo fundacional do PSD, quando, por si só, a contribuição do seu personalismo caracteriza mais o CDS do que o PSD. Aliás, tem a dúbia honra de ser o único autor citado nessa categoria, o que tem o efeito perverso de reduzir o "pacote" ideológico de que ele faz parte, por exemplo, em Sá Carneiro. O contributo de Sá Carneiro é mais correctamente identificável como tendo a ver com a doutrina social da Igreja, muito presente na génese do PSD como contraponto á visão marxista da exploração e da luta de classes. Sá Carneiro e os fundadores do PSD  deram ao "trabalho" e ao seu valor e dignidade um papel muito mais importante no partido do que se imagina, hoje substituído pelos empresários e pelas empresas como sendo o centro da "economia".

(Continua.)


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(JPP)

AQUI...

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... também não se aplica a neo-ortografia que abastarda de forma completa a língua portuguesa, em nome da ingerência do estado onde não deve, para fins ignorantes, inúteis e absurdos.

*
Também sou contra o Acordo Ortográfico e lastimo nada ter feito contra ele antes de entrar em vigor. Imagino que o seu texto tenha origem na decisão do Vasco Graça Moura relativa ao (não) uso do Acordo no Centro Cultural de Belém. Acontece que não acho bem esta atitude. O cidadão Vasco Graça Moura está no seu direito de não usar o Acordo Ortográfico nos seus textos, para além de se ter batido, e bem, para que este não fosse levado à prática. Mas não devemos confundir as pessoas com as instituições e o CCB não pode unilateralmente ficar de fora do uso do Acordo.

(José Carlos Santos)

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(JPP)

MUNDO DOS LIVROS

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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2156 - A Book

There is no frigate like a book
To take us lands away,
Nor any coursers like a page
Of prancing poetry.
This traverse may the poorest take
Without oppress of toll;
How frugal is the chariot
That bears a human soul! 
 
(Emily Dickinson)

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3.2.12

(JPP)

COISAS DA SÃBADO: UM ACORDO INÚTIL E PERIGOSO 
 
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Portugal prepara-se para assinar um acordo internacional, o chamado “Pacto orçamental†que não pode em nenhuma circunstância cumprir: obriga-se a não ultrapassar um défice estrutural de 0,5 por cento e a ter uma dívida pública abaixo dos 60 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). O resto são sanções pesadas para os incumpridores, para as quais, no meio da nossa miséria, mais vale já prepararmo-nos. Porque o que assinamos, repito, é impossível de cumprir, a não ser deixando o país completamente exangue, muito mais do que já está.

Tendo em conta aquilo que são os números do défice actual, já ameaçados pela má execução orçamental e dependentes de medidas extraordinárias como a incorporação dos fundos de pensões da banca, irrepetível por natureza, assim como pela dimensão da dívida que é impossível podermos reduzir para pouco menos de metade. Todos sabem disso, Primeiro-ministro, Ministro das Finanças, governo, Presidente, etc. Para que é que assinamos um acordo que não podemos cumprir, como Alberto João Jardim ao menos teve a clareza de o dizer? Para ganhar tempo? Para quê se esse tempo não pode ser usado para nos proteger do pior que aí vem, bem pelo contrário. Por que não podemos dizer que não a Merkel e a Sarkozy? Talvez. 

Seja como for, um pouco de lucidez deveria levar a perceber que este acordo que vamos assinar, sem debate público e como condenados no pelourinho, é o mecanismo ideal para afastar Portugal e Grécia do euro e da Europa, com o resto da Europa a lavar as mãos. Então eles não assinaram? O que é que esperam se não cumprirem? Daqui a algum tempo falamos de novo, quando toda a gente estiver a por as mãos na cabeça porque o défice e divida estão longe dos valores que “pactuamosâ€. 

Então é que vai ser um bom sarilho.

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(JPP)

ESPÃRITO DO TEMPO:  HOJE
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Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2155

« Le public, le public !... Combien faut-il de sots pour faire un public ? »

(Chamfort)

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1.2.12

(JPP)

NOTAS DE INTENDÊNCIA


Por aí abaixo foram colocados vários comentários dos leitores do Abrupto a notas do blogue. Agradeço a atenção, e peço desculpa pelo tempo que muitas vezes demora a sua publicação.

Sobre o correio vou, infelizmente, repetir pela enésima vez que o seu atraso é irremediável...

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(JPP)

REFERENDO SIM!

ASSINAR A SUA PRÓPRIA SENTENÇA DE MORTE EUROPEIA 


O chamado "pacto orçamental", que tão diligentemente assinamos de cruz, é impossível de cumprir e como tal não tem como objectivo ser cumprido por países como Portugal. O seu objectivo é o de dar um enquadramento legal europeu ao afastamento da zona euro e da UE de países como a Grécia e Portugal. Por isso, o que assinamos foi a nossa própria sentença de morte europeia. Registem, para depois se lembrarem.

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(JPP)

ESPÃRITO DO TEMPO: ONTEM E HOJE

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Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2154 - My First Memory

This is my first memory:
A big room with heavy wooden tables that sat on a creaky
       wood floor
A line of green shades—bankers’ lights—down the center
Heavy oak chairs that were too low or maybe I was simply
       too short
              For me to sit in and read
So my first book was always big

In the foyer up four steps a semi-circle desk presided
To the left side the card catalogue
On the right newspapers draped over what looked like
       a quilt rack
Magazines face out from the wall

The welcoming smile of my librarian
The anticipation in my heart
All those books—another world—just waiting
At my fingertips.

(Nikki Giovanni)

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31.1.12

(JPP)

PERGUNTAS QUE NÃO LEVAM A PARTE NENHUMA

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3. POR QUE RAZÃO FALHARAM AS ÚLTIMAS MANIFESTAÇÕES DOS "INDIGNADOS"?

A comunicação social tem estado relativamente silenciosa sobre o estrondoso falhanço das últimas manifestações "indignadas", como se não houvesse nada a perguntar, nem nada a analisar. O mesmo se diga da patética manifestação contra Cavaco Silva, que nem sequer 200 pessoas reuniu, apesar de ter sido abundantemente anunciada na comunicação social, incluindo a televisiva. Ora tenho para mim que qualquer manifestação hoje que mereça a simpatia benevolente da comunicação social (como aconteceu com os exemplos referidos) que tenha menos de alguns milhares de pessoas obriga a analisar não apenas os factores de atracção em que se baseia o apelo, mas também os factores de repulsão que afastam as pessoas.

A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".

Mas o sucesso da segunda manifestação só existiu enquanto se esteve longe do folclore das "assembleias populares" em frente ao Parlamento e deveu-se ao mais antigo dos movimentos sociais, a CGTP, mais o PCP. Foi isso que encheu as avenidas e foi isso que se rarefez, quando as tropas disciplinadas dos sindicatos e do PCP se recusaram a participar nas cenas excitadas de grupos que acham que o povo são eles e que podem fazer um soviete a brincar nas escadas da Assembleia. Já aqui se percebeu que estavam em jogo factores de rejeição e que essa rejeição foi do vanguardismo mimético da cena entre o hippie e o leninista, no meio de tendas de campismo e lixo, que se pretendeu montar sob o arrogante nome de "assembleia popular".

Por isso, a terceira manifestação foi um falhanço completo. Sem a CGTP, ficou apenas o folclore, alguns genuínos indignados e uma extrema-direita que usa a mesma linguagem dos radicais indignados e por isso estava lá por direito próprio. O mesmo se pode dizer da micro-manifestação da "moedinha para o Cavaco", um ainda maior falhanço, apesar da publicidade na comunicação social, em que a todos os outros factores de rejeição se acrescenta o facto de os jornalistas gostarem muito do engraçadismo, mas a maioria das pessoas, mesmo irritadas com Cavaco Silva, não acharem bem o gozo com a figura do Presidente.

Como é que isto vai continuar? Um pequeno número de proto-leninistas e anarquistas vão tentar provocar incidentes, como se esses incidentes revelassem qualquer "luta de classes", os "artistas" vão continuar a fazer cenas de rua, e tudo isto só ultrapassará a paisagem do Camões e da Rua do Carmo, se a CGTP e o PCP quiserem. Até agora não quiseram.
  


 


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(JPP)

EARLY MORNING BLOGS  
2153 - Book Lover


I keep collecting books I know
I'll never, never read;
My wife and daughter tell me so,
And yet I never head.
"Please make me," says some wistful tome,
"A wee bit of yourself."
And so I take my treasure home,
And tuck it in a shelf.

And now my very shelves complain;
They jam and over-spill.
They say: "Why don't you ease our strain?"
"some day," I say, "I will."
So book by book they plead and sigh;
I pick and dip and scan;
Then put them back, distrest that I
Am such a busy man.

Now, there's my Boswell and my Sterne,
my Gibbon and Defoe;
To savour Swift I'll never learn,
Montaigne I may not know.
On Bacon I will never sup,
For Shakespeare I've no time;
Because I'm busy making up
These jingly bits of rhyme.

Chekov is caviare to me,
While Stendhal makes me snore;
Poor Proust is not my cup of tea,
And Balzac is a bore.
I have their books, I love their names,
And yet alas! they head,
With Lawrence, Joyce and Henry James,
My Roster of Unread.

I think it would be very well
If I commit a crime,
And get put in a prison cell
And not allowed to rhyme;
Yet given all these worthy books
According to my need,
I now caress with loving looks,
But never, never read. 


(Robert Service)

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(JPP)

PERGUNTAS QUE NÃO LEVAM A PARTE NENHUMA

[image]2. POR QUE RAZÃO NINGUÉM FALA EM PRIVATIZAR AS RÃDIOS PÚBLICAS?

A televisão é o grande instrumento de poder na comunicação social e por isso é normal que a atenção política se centre na privatização anunciada de parte da RTP e no desenho futuro ainda por conhecer da empresa estatal. Mas surpreende-me o silêncio e ausência de discussão sobre o facto de, no universo da comunicação social pública, haver um importante sector de rádio: vários canais de rádio tradicionais, e vários na Internet. Ora todos os problemas que se colocam com os canais televisivos da RTP colocam-se com ainda mais agudeza na rádio, onde a oferta privada é mais sólida e importante e não custa nada aos contribuintes. Temos a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois exemplos influentes de um universo de rádios privadas numeroso e activo, cobrindo todas as formas de música, clássica, ligeira, portuguesa, fado, rock, e um jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo. 
 
O que é que justifica existir um pesado sector comunicacional de rádios públicas? A resposta é certamente a mesma que é dada para os canais televisivos da RTP: à esquerda, ideologia da superioridade do público sobre o privado; à direita, poder manter um braço armado na comunicação social que depende de escolhas políticas.

 *
A garantia de uma oferta mínima de um certo tipo de programação audiovisual dita "erudita", uso o termo por facilidade, é uma opção política. Poderemos achar que essa garantia deve existir ou não existir, mas que a escolha tem que ser feita, isso tem. Pelo menos enquanto em Portugal vigorar um sistema de mecenato do qual as pequenas iniciativas raramente beneficiam, não poderemos pensar em vir a ter a já referida oferta garantida por privados como acontece na rádio e televisão pública dos Estados Unidos da América. Pessoalmente acho que sim, que deve ser garantida essa oferta, pela mesma razão que deve apoiar, por exemplo, a ópera. É uma questão de ter ou não ter. Por mais fé que tenhamos na livre iniciativa quanto à oferta cultural, são já vários os exemplos de ofertas que, por não serem de grandes massas acabam por morrer. 
É portanto uma questão de opção política e é legítimo que defendamos uma ou outra solução. O que me parece estranho, no caso deste seu artigo, é a afirmação de que "Temos a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois exemplos influentes de um universo de rádios privadas numeroso e activo, cobrindo todas as formas de música, clássica, ligeira, portuguesa, fado, rock, e um jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo." Como é evidente, na lista de géneros que refere há um que não é de massas e não faria sobreviver nenhuma rádio não apoiada pelo estado. Dizer que a Renascença ou a TSF cobrem o universo da música clássica parece-me, no mínimo, um enorme exagero. É apenas um pormenor no seu texto, mas parece-me ser um pormenor muito importante na elaboração da sua argumentação.
(João Tinoco)

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© José Pacheco Pereira
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